A ÁGUA NA HISTÓRIA

Notadamente é sabido que a humanidade passou em toda sua história por duas grandes revoluções – agrícola e industrial, a água esteve presente nas duas; paradoxalmente ocasionando evolução por um lado e por outro, conflitos, doenças e morte.

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O termo revolução é usado devido à mudança radical que teve lugar nos hábitos e costumes dos humanos nos últimos três milhões de anos. Imaginem pequenos grupos de pessoas vivendo numa caverna, depois noutra, ou ao relento, enquanto se moviam atrás dos animais que caçavam ou dos vegetais que coletavam; nenhum tempo para pensar em algo mais do que comida; vivendo exatamente como animais.

A grande novidade foi fazer a água trabalhar pelo homem; e aprender a controlar os rios implicava também em controlar homens. A aprendizagem do trabalho coletivo para o bem comum na agricultura, foi o germe da civilização (urbanização) humana.
(Braidwood, John, 1907)

O Homo sapiens surgiu há aproximadamente 50 mil anos atrás, durante o último período de glaciação, que o motivou a habitar as zonas mais quentes da Terra na época, que eram a bacia hidrográfica dos rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, os vales do rio Indu na Índia, o rio Amarelo na China e o Lago Biwa no Japão.

Desde que começaram a interagir com o mundo ao seu redor, os seres humanos desenvolveram uma sofisticada percepção e um profundo respeito pela natureza, que diferentemente de hoje mais os afetava que era afetada por eles. Todos precisavam saber quais frutos comer, onde encontrar água durante a seca, como evitar onças, que árvores serviam para construção, para um bom fogo ou bom remédio. O conhecimento ambiental; passado de geração a geração até os dias de hoje; sempre foi necessário para a proteção contra os ataques da natureza e para o aproveitamento das suas riquezas.

No decorrer dos séculos muito se trabalhou sobre a água como coeficiente de higiene e conforto, como sendo produto das relações estabelecidas entre a sociedade e o meio ambiente circundante. E a tendência humana de transformar o meio natural em meio geográfico, isto é, em meio moldado pela intervenção do homem, com o tempo sempre deixou o espaço geográfico impregnado de história. Por isso, para compreender determinada realidade espacial, interpretaremos a seguir alguns trechos da história social mundial aliada à da sociedade local.

Até cerca de 10 mil anos atrás, o homem vivia em pequenos bandos e dependia da caça e da coleta de alimentos para sobreviver; a falta de alimento sempre foi fator limitante de seu desenvolvimento social; chegavam a se matar para consegui-lo. Foi graças ao manejo da água realizado pela civilização Suméria na Mesopotâmia, que a humanidade pôde ter excedentes de alimentos e pela primeira vez, se reunir para planejar e executar obras hidráulicas.
(Braidwood, John, 1907)

Há registros de poços escavados em 8 mil a.C. na Mesopotâmia, os Sumérios desviaram o curso dos rios, plantaram em suas várzeas e construíram barragens com canais de drenagem e sistemas de distribuição de água para irrigação agrícola.

A medida que conseguiu domesticar diversas plantas e animais, criando pastagens, rebanhos e lavouras, o homem criou excedentes de alimentos, libertou-se da vida nômade e passou a viver em aldeias. Por volta de 4 mil a. C na Mesopotâmia, fundaram a primeira cidade da humanidade, inventaram a escrita, desenvolveram as leis, a arquitetura e criaram intensa atividade política. Desde os primórdios das civilizações, a posse da água sempre representou instrumento político de poder.

Nessa época a administração geral das águas era tarefa maior das autoridades públicas e questão militar em todas as principais cidades, mas nunca teve solução. Com o passar do tempo, instalou-se um quadro de conflitos pela administração da água e as cidades-estado (Ur, Uruk, Lagash e Umma) guerreavam entre si; de modo que, próximo a 2.500 a.C. por não haver unificação política na gestão ambiental da bacia hidrográfica, foram invadidos e dominados por povos guerreiros.

Azevedo Netto (1959) destaca que, surgiram no mundo diversas obras relacionadas ao saneamento. Na Babilônia já existiam sistemas de coleta de esgotos nas cidades; na India por volta de 3.750 a.C. foram construídas galerias de esgotos em Nippur e em 3.200 a.C. obras para o abastecimento e drenagem de água no Vale do Indo.

No Japão a história do relacionamento do homem com o Lago Biwa, na Província de Shiga, é apresentada através de exposições de ruínas encontradas no fundo do lago, meios de transporte lacustre utilizados, meios de pesca e uso e controle da água que remontam até a 20 mil anos atrás.

Conforme Azevedo Netto (1984), documentos em sânscrito datados de 2.000 a.C. aconselhavam o acondicionamento da água em vasos de cobre, à sua exposição ao sol e filtragem através do carvão, ou ainda, pela imersão de barra de ferro aquecida, bem como o uso de areia e cascalho para filtração da água. Por volta de 1500 a.C., os egípcios já utilizavam a prática da decantação para purificação da água.

Especialistas no assunto descrevem que no decorrer da história várias civilizações entraram em decadência em função de desequilíbrios ambientais. Supõem-se que a civilização acadiana se extinguiu devido à seca do Tigre e do Eufrates. Estudos revelam que épocas de anarquia e banditismo; com rupturas na sucessão política e substituição de faraós; coincidem com os períodos de seca e as longas vazantes do Nilo.

Na América os Maias, os Astecas e os Incas provavelmente teriam abandonado suas cidades, pela contaminação e poluição da água e do solo provocados pela destruição da mata primitiva.

Quase sempre a primeira preocupação dos assentamentos humanos era se localizar nas proximidades dos mananciais d’água; entretanto na medida em que povoados transformavam-se em cidades, também as reservas d’água tornavam-se, insuficientes e expostas à contaminação e poluição.

Os primeiros filósofos gregos freqüentemente chamados de “filósofos da natureza”, diziam que “Filosofia é o fruto da capacidade humana de se admirar com as coisas”, porque se interessavam pela natureza e pelos processos naturais. Queriam saber como a água podia se transformar em peixes vivos, ou como a terra sem vida, podia se transformar em árvores frondosas ou em flores multicoloridas.

Desde Homero (700 a.C.), na tentativa de descobrir leis que fossem eternas, filósofos deram os primeiros passos na direção de uma forma científica de pensar; eram capazes de elaborar conceitos e idéias abstratas, partindo apenas da observação de fenômenos naturais, como tempestades, inundações, etc; sem ter que para isso recorrer aos mitos.

Thales de Mileto (625 – 548 a.C.). supostamente com os conhecimentos adquiridos junto aos egípcios, descobriu que a Terra era redonda e que a água fosse a origem de todas as coisas; observando como os campos inundados ficavam fecundos, depois que as águas do Nilo retornavam ao seu delta.

Por volta de 460 a.C., supõe-se que a ciência médica grega tenha sido fundada, por Hipócrates – pai da medicina – que apesar de não conhecer o mundo dos seres microscópicos “recomendava ferver e filtrar a água de beber”; sua teoria dizia que o caminho para a saúde do homem está na moderação e num modo de vida saudável – “mente sã em corpo são”.

Precisamente nesta época, Sócrates (470 – 399 a.C.) andava pelas ruas e praças conversando com os atenienses, espaço onde foi lançada a pedra fundamental de toda a civilização européia e formulados palavras e conceitos como: “polÍtica, democracia, economia, história, biologia, fÍsica, matemática, lógica, teologia, filosofia, ética, psicologia, teoria, método, idéia e sistema”. Foi Sócrates que relacionou a deficiência de iodo na água com o (bócio) aumento da tireóide (hiper-tireoidismo).

Platão (426-348 a.C.) manteve contato e foi discípulo de Sócrates; muito mais que um educador, elaborou sistema filosófico e um método de investigação na Academia; que não era aberta para todos; mas, para aquele que pelas qualificações da alma, detinha as condições de obtenção do conhecimento. Assim como Sócrates, Platão acreditava na reencarnação, na imortalidade da alma e afirmava que: “O ouro tem muito valor e pouca utilidade, comparado à água, que é a coisa mais útil do mundo e não lhes dão valor”.

O primeiro grande biólogo da Europa Aristóteles (384 – 322 a.C.), já conhecia “bactérias gigantes” que formavam densas massas enoveladas visíveis a olho nu; hoje classificadas como sphaerotilus. Dizia “Das coisas, a mais nobre, a mais justa e melhor é a Saúde”. Aristóteles resumiu tudo que os filósofos naturais haviam dito antes e criou o Liceu, escola que fundou e ordenou as ciências básicas da cultura européia.

Na antiga Grécia desde o século VI a.C. já havia tecnologia para captação e distribuição de água a longas distâncias. Um túnel construído em Samos, que aplicava o princípio dos vasos comunicantes e pressurização dos encanamentos para condução da água; foi considerado por Heródoto como ‘maior’ obra de engenharia da Grécia, até então. Importantes sistemas hidráulicos pressurizados foram construídos e descobertos em Pérgamo e em Emuros (180 a 160 a.C.).

Em Atenas nessa época, já existiam caixas d’água localizadas nas partes mais altas da cidade, afastamento dos esgotos e descargas em vasos sanitários.

Nenhuma civilização se compara à romana no que se refere às obras hidráulicas e saneamento. No século IV a.C. Roma já contava com 856 banhos públicos e 14 termas que consumiam aproximadamente 750 milhões de litros de água por dia, distribuídos por uma rede com mais de 400 km de extensão, conforme Liebmann (1979). Em 312 a.C., Appius Crassus construiu o primeiro aqueduto romano, o Via Appia com 16,5 km de extensão; a partir daí, os aquedutos foram disseminados por todo Império e construídos também na Alemanha, Itália, França, Espanha, Grécia, Ásia Menor e África do Norte.

Além de desenvolveram dispositivos especiais de ortoga para disciplinar os usos da água; os romanos também criaram hidrômetros para medição do consumo de água, cujo controle, era feito por administradores públicos que promoviam já nessa época o uso racional da água e praticas de reuso, ao utilizarem água dos banhos públicos nas descargas das latrinas.

A ‘cloaca máxima’ disse Azevedo Netto (1959), com 4,3 metros de diâmetro escavados na rocha assemelhava-se ao atual coletor tronco de esgotos. Entretanto, toda essa infra-estrutura de saneamento básico não foi suficiente para conter a degradação da água e do meio ambiente; apenas escondia a imundice (esgotos e lixo) das pessoas antes de despeja-los nos cursos d’água da vizinhança. Também o sepultamento dos cadáveres consistia apenas em lançá-los em fossas a céu aberto em redor da cidade.

Finalmente, Roma tornou-se uma metrópole mal cheirosa, assolada por peste, e, no dizer de um historiador, “registrou um nível tão baixo de higiene pública que outras comunidades mais primitivas nunca desceram até ele.”

Duzentos anos antes do nascimento de Jesus Cristo (ano zero) vários profetas já haviam anunciado a vinda do “Messias” ou “Filho de Deus” para fundar o “Reino de Deus”. Nesta época isto tinha um significado muito político, imaginavam Jesus como um líder político, militar e religioso igual ao rei Davi.

Mas contrariamente, o mestre destranca as arcas do conhecimento enobrecido e distribui-lhe os tesouros. Dirige-se aos homens simples de coração, curvados para a gleba do sofrimento e ergue-lhes a cabeça trêmula para o Céu. Aproxima-se de quantos desconhecem a sublimidade dos próprios destinos e assopra-lhes a verdade, vazada em amor, para que o sol da esperança lhes renasça no ser. Abraça os deserdados e fala-lhes da providência infinita. Reúne, em torno de sua glória que a humildade escondia, os velhos e os doentes, os cansados e os tristes, os pobres e os oprimidos, as mães sofredoras e as crianças abandonadas e entrega-lhes as bem aventuranças celestes.

Cristo ensina que a felicidade, não pode nascer das posses efêmeras que se transferem de mão em mão, e sim da caridade e do entendimento, da modéstia e do trabalho, da tolerância e do perdão. Afirma-lhes que a Casa de Deus está construída por muitas moradas, nos mundos que enxameiam o firmamento, e que o homem deve nascer de novo para progredir na direção da sabedoria divina. Proclama que a morte não existe e que a criação é beleza e segurança, alegria e vitória em plena imortalidade.

“Da água surgiu a vida, de um curso d’água nasce uma civilização”

7 responses

28 09 2011
karina marcelino

eu nao li nem metade do texto

28 03 2012
rafael

legal

28 03 2012
vanessa

ñ li nem a metade mais achei muito legal a história ;)

18 09 2012
nayara

eu achei muito bonito

23 10 2012
melissa

nao li mas achei legal

27 03 2013
Márcio Passos Nogueira

Gostei muito do artigo. É interessante notar que, a água encanada e a rede de esgotos eram tecnologias já presentes na Grécia Antiga e no Império Romano, duas das civilizações mais avançadas da Antigüidade. Lamentavelmente esta mesma tecnologia de distribuição e aproveitamento da água, através de redes canalizadas, desapareceu juntamente com estas duas civilizações, ressurgindo somente na Era Moderna, nos séculos XIX e XX, em escala maior, com a industrialização e urbanização crescentes.

27 03 2013
Márcio Passos Nogueira

Essa tecnologia de captação e distribuição de água que existiu, de forma mais completa e funcional, na Grécia Antiga e em Roma, desapareceu ou entrou em declínio na Idade Média européia, vindo a ser reinventada na Modernidade, nos céculos XIX e XX, principalmente, após a Revolução Industriale sua subseqüente urbanização.

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