Opinião

1 11 2007
Lula e o movimento social

ImageCesar Sanson*
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Lula, egresso das lutas sociais deu as costas para o movimento social. A Reforma Agrária, depositária de toda uma simbologia histórica da luta social brasileira encontra-se travada. Os últimos conflitos no campo revelam a distância e a indiferença do governo para com o movimento social. A marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Rio Grande do Sul e o caso Syngenta no Paraná, para ficar em dois exemplos, demonstram a desfaçatez para com essa agenda social histórica. Hoje, Lula está muito mais acercado e submetido à agenda dos ruralistas do que a agenda MST.

1,7 mil trabalhadores rurais marcham no sul desde o dia 12 de setembro. O objetivo é a desapropriação da fazenda Coqueiros. O projeto de desapropriação se encontra na mesa do presidente, porém não mereceu até o momento nenhuma palavra de Lula. No Paraná, a associação do capital transnacional Syngenta com o latifúndio, fez mais uma vítima, o trabalhador rural Valmir Mota. Tampouco, o governo se manifestou. A face violenta e truculenta do latifúndio não mereceu uma palavra do governo. Lula calou-se.

A auto-confiança dos ruralistas é tanta que passaram a defender abertamente no Congresso, a tese de relaxamento da legislação sobre trabalho escravo. Até mesmo um aliado histórico do governo Lula, o movimento sindical sofre revés. O governo voltou a pautar o tema da Reforma Previdenciária e da Lei de Greve dos Servidores Federais. Uma possível reforma dessas legislações significará mais perda para os trabalhadores.

Enquanto o movimento social é tratado com indiferença e até mesmo certo desprezo pelo governo Lula, o capital está satisfeito. O investidor Armíno Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC), afirma de forma entusiasmada que o Brasil está passando por uma “revolução capitalista”. O capital multinacional pensa da mesma forma. Emílio Botin, presidente mundial do banco Santander disse que “o Brasil é um país fantástico, com bancos fantásticos, empresários fantásticos” e arrematou, “o mundo ainda não descobriu o Brasil”.

Na recente reunião com os empresários, Lula colheu elogios. Um dos presentes ao encontro no Palácio do Planalto conta que os depoimentos dos empresários sobre a economia no governo Lula foram tão enfaticamente positivos que mais pareciam “testemunhos” dados num templo.

O fato incontestável é que os bancos nunca ganharam tanto. Apenas no governo Lula o lucro líquido semestral dos cinco grandes bancos brasileiros cresceu 132,5%. O mesmo vale para as empresas que viram a sua remessa de lucros para as matrizes triplicarem nos últimos anos.

A ‘revolução capitalista’ brasileira é obra de um presidente operário e não de um burguês, como Fernando Henrique Cardoso, tampouco de um oligarca como Sarney, de um conservador mineiro como Tancredo ou de um chefe militar tipo Geisel.

Surpreendentemente quem faz a ‘revolução capitalista’ no Brasil é um governo eleito pelos movimentos sociais. E ainda mais irônico, o governo que faz a alegria dos mais ricos, também é adorado pelos mais pobres. E mais ainda. O governo conseguiu neutralizar o movimento social, em parte cooptou-o e deixou-o a deriva.

(*) Pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores e doutorando de Ciencias Sociais na UFPR. Esta análise foi feita em um trabalho conjunto com a equipe do Instituto Humanitas Unisinos (IHU).

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