Esperteza política?

4 11 2007

Lula, a reeleição e a Copa
Do Jornal Opção

A oposição critica o golpismo, mas Lula trabalha, com certa sutileza, pelo terceiro mandato consecutivo. Mas a decisão cabe à sociedade, não ao petismo

Os menos cautos e os petistas engajados podem perguntar, em tom irônico: “Cadê o regime autoritário que a imprensa dizia que o presidente Lula da Silva iria implantar no Brasil?” A indagação tem sua pertinência, mas não leva em consideração que, sim, houve tentativas de se implantar algumas medidas autoritárias, como o controle da imprensa e do Ministério Público e o enquadramento do setor cultural. Nada foi “implantado” não por que Lula e os petistas de resultados se tornaram, da noite para o dia, democratas irrepreensíveis, e sim devido à resistência das instituições. Imprensa, OAB, magistrados, políticos e empresários, a chamada sociedade organizada, reagiram, com a necessária acidez, e o governo Lula tomou prumo. Não existe determinismo histórico, tipo “o Brasil vai ser assim ou assado”. A intervenção dos agentes históricos, sobretudo dos organizados, pode mudar o rumo de um país. Tal aconteceu no Brasil, que tem uma sociedade (civil e política) mais estruturada do que a da Venezuela, portanto com maior capacidade de resistência.

Como a sociedade reagiu com firmeza às tentativas petistas de “implantar” um regime autoritário, que certamente permitiria a continuidade do poder esquerdista, a intelligentsia ligada ao presidente Lula — que, embora não seja marxista, lidera uma frente política que inclui marxistas (que pensam, em geral, em poder exclusivo) —, mudou de tática, não de estratégia. Esta é a manutenção do poder por mais tempo possível. As táticas têm a ver com o jogo conjuntural, com a intervenção no cotidiano.

Nos dois primeiros anos do primeiro mandato, via-se um Lula mais rígido, ainda em contraposição a alguns setores da sociedade, como parte do empresariado, que, em certos redutos petistas, é visto como “marginal”, “explorador da mão-de-obra assalariada” e, por isso, merecedor de “excomunhão”. A partir do terceiro e do quarto anos, quando os poderosos ventos do mensalão o livraram de José Dirceu, o Hugo Chávez que não deu certo, Lula praticamente enquadrou-se ao Brasil real, tornando-se, aparentemente, um político próximo do neopopulismo — amado por quase todos, do empresariado ao pobre.

No segundo mandato, quando já havia conquistado parte do establishment político e empresarial — o BNDES abriu as burras para todos que apresentassem projetos confiáveis de algum retorno financeiro e o Banco do Brasil se tornou mais realista em relação aos produtores rurais —, Lula, com o apoio de seus luas vermelhas, mudou, mais uma vez, sua tática.

Nos bastidores, Lula admite aos interlocutores que oito anos de governo não são suficientes para a adoção de medidas estruturais. Noutras palavras, não é possível acabar com a fome dos pobres em menos de 12 , 16 ou 20 anos e os projetos dos empresários precisam de mais prazo e, por conseqüência, mais apoio do governo federal. Publicamente, para não passar a imagem de ser o Chávez de barba, Lula diz que não pensa num terceiro mandato. Ele sugere uma volta ao poder em 2014.

Entretanto, o Lula real, o que não é forjado por um marketing atilado, quer continuar no poder, mas não por intermédio de um golpe de Estado, e sim de um golpe político. Quer dizer, ao contrário do que diz para os jornais, com o objetivo de criar manchetes nas quais possa ser visto como “o” democrata, Lula trabalha, nem tão silenciosamente, por um terceiro mandato consecutivo.

Se não quisesse disputar uma terceira eleição, para o qual provavelmente não teria rivais à sua altura — muitos, como Aécio Neves e mesmo José Serra, certamente sairiam da raia —, Lula não permitiria que dois aliados, os deputados Devanir Ribeiro, do PT de São Paulo, e Carlos Willian, do PTC de Minas Gerais, trabalhassem claramente pela aprovação de um plebiscito (Devanir) e de uma emenda constitucional que possibilite o terceiro mandato consecutivo (Carlos Willian).

Devanir é um dos melhores amigos de Lula e quem o conhece costuma dizer que não anda cinco metros sem a autorização do presidente. Sua defesa de um plebiscito tem lógica, pois dificilmente o povão deixaria de conceder a possibilidade de um terceiro mandato a Lula, um homem do povo, afinal. A emenda constitucional, ainda que seja garantia de legitimidade democrática, enfrentaria uma pedreira no Congresso. O plebiscito, longe de discutir apenas o terceiro mandato, seria uma decisão contra ou a favor de Lula. E dificilmente se diria “não” a um símbolo como Lula, que tem perfil, por estranho que possa parecer, de rei.

Nas conversas com empresários e políticos, apesar de que estaria orientando auxiliares mais próximos para condenar a possibilidade do terceiro mandato, o presidente Lula tem discutido o assunto. Eventualmente, de forma jocosa. Mas, desde Freud, pelo menos, sabe-se que a brincadeira contém fundo de verdade, digamos que seja a “verdade dançante”, ou seja, uma possibilidade que, vista com seriedade, pode se tornar factual.

Ao contrário do que diz certa crítica tucana, Lula, como presidente e articulador político, não é um fracasso. Diziam: “Sem José Dirceu, Lula não governa”. O fato é que melhorou sem José Dirceu e arranjou uma José Dirceu, a ministra Dilma Rousseff, que, a despeito de ser poderosa, não quer chefiá-lo e tomar-lhe espaço político. Lula tem mesmo o que mostrar. E é óbvio que está tentando se apropriar, e deve consegui-lo, do discurso de que é o “pai” da estabilidade econômica, quando, na verdade, apesar dos discursos de seus economistas e jornalistas, pode ser considerado, no máximo, o padrasto, pois os pais são os ex-presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Porém, se não é o pai, Lula pelo menos não deixou a estabilidade escapar pelo ralo e teve coragem de bancar um economista-engenheiro ortodoxo, como Henrique Meirelles, para o Banco Central. No poder, mantém a inflação sob controle, baixa, e contribui, com muito custo, para uma relativa retomada do crescimento econômico. As reservas cambiais chegam quase a 170 bilhões de dólares. Enfim, o petista não comprometeu. Agora, com a escolha do Brasil para sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014, Lula tem mais um trunfo. É mais uma vitória “dele”, ou pelo menos apropriada por Lula. Se reeleito em 2010, seria decisivo — é o que os petistas vão dizer — para organizar os estádios e a bilionária estrutura para a Copa. Lula gosta tanto de futebol quanto Emilio Garrastazu Médici.

Politicamente, Lula se tornou um avião, conquistando novos apoios tanto de políticos quanto de empresários. De certo modo, para usar a linguagem do futebol, Lula é um craque, um mestre dos disfarces políticos que sabe agradar todas as platéias. Tanto que há setores do governo, como a Caixa Econômica Federal, que se preparam para atender a classe média, que está quebrada. Na semana passada, possibilitou o uso do FGTS para aqueles que ganham acima de 4,9 mil reais por mês. Num plebiscito, como se sabe, a classe média é decisiva.

A prova de que Lula não se prepara para lançar um candidato em 2010, à espera de que seja reconduzido a um terceiro mandato, é que não se empenha, em nenhum momento, para fortalecer um nome. Ciro Gomes? Dilma Rousseff? Nelson Jobim? Aécio Neves? O petismo, que reflete Lula, não aposta em nenhum deles. Porque, repetindo, a aposta do PT, e de Lula, é o próprio Lula.

Em certo sentido, o Jornal Opção foi pioneiro nas críticas à tentação autoritária do governo petista, notando a resistência da sociedade e as modificações do governo Lula no seu percurso e, sobretudo, a vontade de continuidade do petismo. Lula pela terceira vez no poder seria um Hugo Chávez sem conturbação. É assim que o PT e Lula querem — a hegemonia consensual. Dará certo? Só o futuro, que nem a Deus pertence, dirá. Mas a escolha não é do PT e de Lula, e sim da sociedade.

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