O Reitor Palhaço

20 11 2007


Esta semana eu remocei: voltei às galerias da Assembléia Legislativa de Pernambuco, qual nos bons tempos de estudante do Instituto de Teologia do Recife. Não fui para lutar no grito por uma causa libertária, porém, mas para aplaudir uma das poucas coisas que restaram e frutificaram das nossas utopias de moleque sonhador: a experiência da educação popular.

Neste 22 de outubro os senhores deputados tiveram as suas cadeiras (quase sempre vazias mesmo) ocupadas por crianças, indígenas, deficientes, negros, idosos, pais-de-santo, pastores e reverendos. Uma platéia de Organizações Humanitárias e variegadas religiões prorromperam no Palácio Joaquim Nabuco para vivenciar a quinta aula aberta da Universidade Popular do Nordeste, que reinventa a educação como consciência do processo de humanizar e emancipar essa nossa vidinha.

Com o tema “Planeta Terra, a Casa da Gente”, desfilaram na tribuna doutores e brincantes, uma bandinha entoou clássicos universais e um balé atacou com o frevo recifense no pé. Foram momentos emocionantes de partilha de cultura popular e erudição engajada, da cosmovisão afro-brasileira e do socialismo de Politzer, tudo regado à educação libertadora de Paulo Freire.

Pois esses são os princípios encarnados por essa Universidade fundada há cinco anos no bairro popular do Curado III, arrebaldes de Jaboatão, que trabalha com empregadas domésticas, biscateiros e faxineiros – essa gente que sai da lama e diz que ama, que ensaia alquimia e transforma lixo em luxo. História geral e do Brasil, oratória, medicina natural e iniciação musical estão entre os cursos oferecidos pela Universidade.

Aliás, dois doutores que ocuparam as Folhas esta semana bem podiam se matricular nessa Universidade daqui da periferia: um foi o grande cientista James Watson nos Estados Unidos, que, depois de invocar recursos da manipulação genética para resolver os “problemas” dos homossexuais, dos obesos e das “mulheres feias”, disse que os negros são “menos inteligentes”. Ele é considerado pai da biologia molecular, muito em voga, mas tem muito mais a ver é com o “pai da mentira”, né?!
Outro, igualmente fundamentalista, mas pelo lado da religião, foi o juiz mineiro Edilson Rodrigues, que considerou “diabólica” a lei de proteção a mulheres violentadas, recusando-se a aplicá-la em seu tribunal. “Ora, a desgraça humana começou no Éden: por causa da mulher, todos nós sabemos (…). O mundo é masculino! A idéia que temos de Deus é masculina! Jesus foi homem!”, disse o “purpurado”. Quanta gente não precisa criticar a sua pretensa ciência e interpretar a sua presumida religiosidade!

As aulas abertas da UNIPOP, então, fazem parte da campanha “Pelo fim da Intolerância”, que será realizada até o ano de dois mil e dez – e, pelo visto, talvez devesse ser prorrogada! Desta feita, foram homenageadas a ex-presidente do Sindicato das Empregadas Domésticas, Lenira Carvalho; Zenilda Araújo, mãe do povo Xucuru de Pesqueira; e o jovem paraibano Linaldo Constantino, pelo exemplo de superação na vida d-eficiente… Esse pessoal deu uma aula de sapiência no cuidado por todo mundo, como se fosse “de casa”, sem precisar muitas palavras!

Para mim, aliás, bastava, para essa aula ter valido a caminhada à Assembléia, a abertura perpetrada pelo reitor da UNIPOP, o também pastor de “igreja livre”, Jardson Gregório – que nem precisa de graduação formal para ser sábio quem nem é. Pois esse reitor e pastor, cheio de espirituosidade, entrou no meio de crianças, vestido de palhaço e pintado a rigor, distribuindo flores e provocando o riso no templo dos Legisladores de Pernambuco! Confesso que chorei, também, com essa lição, até de teologia.
Sim, pois o estilo da teologia devia ser o do riso: sacramento que faz com que crianças e palhaços andem de mãos dadas, enchendo o mundo de Espírito. O riso de palhaço desenha bigodes no rosto solene dos poderosos e coloca cravos cheirosos no cano dos fuzis, proclamando que as coisas podem ser diferentes. O riso das crianças é aquele que exulta na sua própria nudez, que nada tem do que se envergonhar. O riso dos palhaços amedronta os demônios e o riso das crianças – bem o sabia Jesus – é o riso do corpo que, livre dos demônios, pode voar e se encantar com tudo, até com o planeta.

Prof: Gil Braz.

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23 10 2010
SIMONE LEITE

Prezados reafirmo as palavras colocadas na reportagem, tive oportunidade de conhecer o trabalho realizado e achei importante iniciativa, que se contrapõe a formação centrada no saber acadêmico, onde o saber popular não é priorizado, e não favorece a troca de saberes, que contribui para a emancipação da população.
De parabéns O Jardson e população da Bola de Ouro que vem vivenciando essa experiência que precisa ser multiplicada em outra localidade
Simone Leite
MOPS / ANEPS SERGIPE

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