CRÔNICA

26 08 2008

A Zona Eleitoral

por Arthur Maciel*
arthurmaciel@limao.com.br

– Povo da minha terra, que me ouve agora, aqui, neste exato momento deste dia de hoje! – grita pleonasticamente ao microfone o candidato a vereador de uma pequena cidade ao introduzir sua fala. É manhã de sábado e povo passa para a feira em meio aos cavalos, porcos e galinhas. Não àqueles que se esgoelam nos palanques, mas entre os animais de verdade, que estão à venda. Se bem que os cavalos, porcos e galinhas que falam ao povo também estão à venda. Pelo menos é o que parece. Eles se autopromovem para um pequeno grupo de gatos pingados, trazidos por eles mesmos de seus redutos, e para os transeuntes que aparentam se interessar muito mais pelos cavalos, porcos e galinhas da feira do que por aqueles que relincham, grunhem e cacarejam do alto do palco armado na praça.
O locutor diz os nomes e os números dos candidatos como quem lista os preços dos produtos do mercado: Zé do Açougue 35222, Pescoço bovino 1.99 o quilo. A carne é de terceira e os políticos, de quinta! Os discursos, se é que assim podem ser chamados, seguem um mesmo roteiro: votem em mim / sou honesto / votem em mim. Um ou outro mais falante foge à regra e faz diferente: promete coisas até ele mesmo duvida que possa realizar! Mas ninguém questiona, só aplaude. Em política, ajoelhou tem que rezar…para que eles não sejam eleitos, suponho.
A opção de um eleitor por um candidato é de uma lógica muito simplória, quase franciscana! Por aqui, fatores econômicos e emocionais é que pesam na hora da decisão. Se o postulante dá dinheiro mas não agrada, ele torra seus bens e não vence a disputa. Do mesmo modo, se ele faz o coração feliz mas deixa o bolso triste, continua passível de derrota. Não importa se é cavalo, se é porco ou se é galinha. Sendo simpático e gastador ele tem vitória quase certa, ainda que depois o sorriso desapareça e a gastança continue, mas com o dinheiro de outros animais: das antas e dos burros que o elegeram!
A democracia, iluminada pela esperança e aquecida pela fé, como dizia o talvez ingênuo Ulysses Guimarães, é consumada com a apuração dos votos. Tarde da noite, segue uma carreata pelas ruas da cidade composta rigorosamente de um carro-de-som, uma caminhonete com o prefeito eleito em cima e o povo que, correndo eufórico na frente, mostra que foi feita a sua vontade. Onde a festa acaba? Para o candidato vitorioso, em um almoço no dia seguinte com as autoridades locais. Para o povo, em uma ressaca daquelas e numa brusca retomada da dura rotina que havia sido deixada de lado com a empolgação da campanha. As pessoas acabam esquecendo das obrigações do dia-a-dia devido ao calor da eleição e depois não lembram de cobrar as promessas da eleição por causa das agitações do dia-a-dia!
A lógica franciscana da campanha eleitoral é a mesma nos quatro anos de mandato dos eleitos. Mas a relação deles com os eleitores vai ficando cada vez menos santa, afinal eles não precisam de votos, pelos menos por enquanto, e então passam pelo que eu chamo de Síndrome da Inculpabilidade: o político começa a transferir para os outros a responsabilidade sobre sua pífia atuação. É aquela velha estória (com “e” mesmo) do Legislativo que sempre depende do Executivo para ter seus projetos executados…e assim eles vão saindo pela tangente, pelo seno e pelo cosseno com a mesma desculpa! É como se as “excelências pouco excelentes” combinassem, além das benevolências recíprocas, as justificativas furadas que vão dar à sociedade.
A cena final e mais marcante deste filme, que o leitor tem a estranha sensação de já ter visto um dia, é que aqueles que corriam eufóricos na dianteira das carreatas depois parecem continuar correndo, mas de medo do tal “sistema democrático” que descasca, usa e então joga fora. A política virou um instrumento de prostituição da cidadania. O Brasil é uma gigantesca ZONA eleitoral no seu mais lamentável sentido.

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