CARTA INÉDITA DE DOM HÉLDER SOBRE PE. HENRIQUE

14 10 2008


Carta inédita de Dom Helder Câmara narra os tensos momentos entre a informação do assassinato e o velório do Padre Henrique Pereira, trucidado em 1969 por integrantes da ditadura militar brasileira. Na época, a Igreja Católica em Pernambuco vivia sob censura e o arcebispo costumava escrever cartas para registrar os fatos que a imprensa não divulgava. No caso do Padre Henrique, a família não pôde, sequer, publicar nos jornais o tradicional anúncio fúnebre. A carta do Dom:

À querida Família Mecejanense
Recife 27/28 de maio de 1969

525ª. Circular

De repente, às 13:30h me chega o boato de que Pe. Antônio Henrique havia sido assassinado. Procura daqui, procura dali, ele foi identificado no necrotério de Santo Amaro , onde dera entrada como cadáver desconhecido.
Estaria com sinais de sevícias incríveis: 3 balas na cabeça,uma instalada na garganta, sinais evidentes de que foi amarrado pelos braços e pelo pescoço, e arrastado…28 anos de idade, 3 anos de sacerdote. Crime: trabalhar com estudantes e ser da linha do Arcebispo.
Coube-me procurar os velhos pais e dar-lhes a notícia terrível.
No necrotério – onde ficamos até as 19hs, quando o cadáver foi liberado pelos médicos legistas – vivi uma Avant-Premiére de minha própria morte. Burburinho na sala. Gente chegando de todos os cantos. A Imprensa escrita, falada, teve ordem de ignorar o acontecimento, mas demos avisos a todas as paróquias, por telefones e recados pessoais
Levei-o para a Matriz do Espinheiro. Escolhida sob meu divã, inclusive para causar impacto no meio independente.
Na primeira concelebração, às 21hs, tínhamos mais de 40 sacerdotes e a igreja, enorme, estava transbordante de jovens.
Dei uma tríplice palavra:

· Palavra de fé, aos velhos Pais, esmagados de dor;
· Palavra de esperança, aos jovens com quem ele trabalhava, assumi o compromisso de que eles não ficariam órfãos;
· Aos fieis que enchiam o templo – mais uma vez que a imprensa escrita e falada tinha ordem para recusar até o aviso pago de falecimento – pedi que ajudassem a espalhar que às 9hs, haverá nova concelebração, saindo o enterro, às 10hs, para o cemitério da Várzea, que é o cemitério da família.
Li então, a nota, assinada pelo Governo Colegiado, nota que a imprensa não divulgará, mas que nós tentaremos espalhar por toda a cidade, pelo País e… pelo Mundo.
1 . Cumprimos o pezaroso dever de comunicar o bárbaro trucidamento do Pe. Antônio Henrique Pereira Neto, cometido na noite de ontem, 26 do corrente, nesta cidade do Recife.

2. Com 28 anos de idade e 3 anos de sacerdote, o Pe. Henrique dedicou a vida ao Apostolado da Juventude, trabalhando, sobretudo, com os universitários.
Às 22:30h de ontem, segundo o testemunho de um grupo de casais, esteve reunido, em Parnamirim, com pais e filhos na tentativa, que lhe era tão cara, de aproximar as gerações.

3. O que há de particularmente grave no presente crime, além dos requintes de perversidade de que se revestiu (a vítima, entre outras sevícias, foi amarrada, enforcada, arrastada e recebeu 3 tiros na cabeça) é a certeza prática de que o atentado brutal se prende a uma série pré-estabelecida e objeto de ameaças e avisos.

4. Houve, primeiro, ameaças escritas em edifícios, acompanhadas, por vezes, de disparos de armas de fogo. O Palácio de Manguinhos recebeu numerosas inscrições. O Giriquiti foi alvejado. A residência do Arcebispo, a Igreja das Fronteiras, alvejada e pichada.

5. Vieram, depois, ameaças telefônicas, com o anúncio de que já estavam escolhidas as próximas vítimas.
A primeira foi o estudante Cândido Pinto de Melo, quartanista de Engenharia, presidente da União de Estudantes de Pernambuco. Acha-se inutilizado, com a medula seccionada.
A segunda foi um jovem sacerdote, cujo crime exclusivo consistia em exercer apostolado entre os estudantes.

6. como cristãos e, a exemplo de Cristo e do proto-mártir, S. Estevan, pedimos a Deus perdão para os assassinos, repetindo a palavra do Mestre: “Eles não sabem o que fazem”.
Mas julgamo-nos no direito e no dever de erguer um clamor para que, ao menos, não prossiga o trabalho sinistro deste novo Esquadrão da Morte.

7. Que o Holocausto do Pe. Antônio Henrique obtenha de Deus a graça da continuação do trabalho pelo qual doou a vida e a conversão de seus algozes.

Recife, 27 de maio de 1969
+ Helder, Arcebispo de Olinda e Recife
+ Lamartine, Bispo auxiliar e Vigário Geral
Mons. Arnaldo Cabral , vigário episcopal
Mons. Ernani Pinheiro, Vigário Episcopal

A enorme assembléia cantou e rezou durante todo o santo sacrifício. Quando irrompeu o “Prova de Amor maior não há, do que doar a vida pelo irmão”, ouviam-se soluços…
E aqui estamos em vigília e de plantão. Há o temor de que pretendam obrigar-nos a um sepultamento precipitado e sem assistência. Em caso contrário, será uma apoteose:
Após a segunda concelebração, o enterro seguirá a pé , até o inicio da Avenida Caxangá.
O que a muitos parecia fantasia, de repente tornou-se claro para a cidade inteira. Querem que eu me proteja; que não ande só, à noite; que não durma só.
Quem disse que eu ando só? Quem disse que eu durmo só? Andam e dormem comigo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Velam por mim a Mãe querida e José o amigo fiel… nada acontece ou acontecerá por acaso. É graça, é privilégio viver a 8ª bem-aventurança!

Bênçãos Saudosas do Dom

Fonte: http://www.pe-az.com.br/especiais/pe_henrique_dom.htm

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