MEA CULPA

10 11 2008

Museu da escravidão
Em Liverpool, exposição relembra os quatro séculos de comércio transatlântico de escravos e mostra como a Europa tirou proveito econômico do subdesenvolvimento africano.
Adriano Belisário

No século XVIII, Liverpool era conhecida como a capital do tráfico transatlântico de escravos. Como emmea culpa, em 2007, a cidade inglesa inaugurou o Museu Internacional da Escravidão. O local pretende lançar um novo olhar sobre a história da África e demonstrar as raízes econômicas do processo que sujeitou milhões de pessoas a condições subumanas.

A exposição é dividida em três seções. A primeira parte prima por desconstruir mitos antigos, como a noção de que as tribos da África eram bárbaras e os colonizadores europeus, civilizados. Este julgamento é fruto do estranhamento dos primeiros aventureiros portugueses e espanhóis frente à cultura daquele local. 

A organização social baseada em outras estruturas que não a familiar, por exemplo, era motivo suficiente para taxa-los de selvagens. Exposta no Museu, a frase do escritor político Frantz Fanon sintetiza esta interação desigual: “A Europa assumiu a liderança do mundo com ardor, cinismo e violência”.

Neste primeiro momento, os visitantes podem conferir uma réplica de parte de um vilarejo Igbo, grupo étnico africano que vive na Nigéria. Além das construções domiciliares, são expostos também artesanatos e outras produções culturais daquele povo.

Devido à descoberta da América pelos europeus no século XV e XVI, as relações com os africanos ganham contornos mais drásticos. De meros selvagens, eles tornam-se um produto capaz de gerar muito dinheiro com trabalhos forçados nas imensas plantações de açúcar, café e algodão do Novo Mundo. A força de trabalho indígena não era capaz de dar conta da cobiça dos europeus porque muitos deles morreram em guerras ou pelo contágio de doenças para as quais não tinham imunidade.

A transferência de mão-de-obra de um continente para o outro era algo custoso. Tratava-se de um investimento de alto risco, mas capaz de gerar lucros pomposos. A operação geralmente era organizada por um grupo de mercadores, banqueiros e políticos que se uniam para dividir os lucros e prejuízos. Colocando em valores atuais, o custo de um empreendimento como este em 1790 poderia chegar a quase R$ 2 milhões. 

O Museu não hesita em mencionar os culpados nos painéis informativos: “Inicialmente, Portugal e Espanha tomaram a liderança nesta questão e foram seguidos mais tarde pela Inglaterra, França e Países Baixos”. Famílias tradicionais, como os Gladstones, e o Banco da Inglaterra são citados nominalmente.

Durante 400 anos, aproximadamente 12 milhões de africanos foram transportados a força. No entanto, os efeitos da escravidão atingiram um número bem maior de pessoas e seus desdobramentos ainda são sentidos nos dias atuais. “A África ajudou a desenvolver a Europa Ocidental na mesma proporção que esta ajudou a não desenvolver a África”, diz uma frase do historiador Walter Rodney.

As condições dos navios negreiros também são retratadas no Museu Internacional da Escravidão. Há não só informações sobre as revoltas, suicídios e estupros que aconteciam a bordo, mas também filmes projetados em telões com simulações das viagens em direção à América.

A última sessão aborda o legado deixado pela escravidão. O fim desta prática é recontada em detalhes, assim como a luta pela igualdade de direitos civis no século XX. Novamente, a motivação econômica é evidenciada. A Revolução Industrial criou a necessidade de consumidores para a avalanche de produtos fabricados. Os donos de escravos das colônias inglesas receberam recompensas bilionárias pela mudança de orientação política. Os escravos, nada. 

A terceira parte da exposição abrange ainda as lutas por igualdade de direitos no século XX e figuras como Luther King e Malcom X. Em sintonia com estes líderes, o Museu Internacional da Escravidão cumpre seu objetivo de não deixar que uma das maiores atrocidades já cometidas pelo homem caia no esquecimento.

FONTE: www.revistadehistoria.com.br

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