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NEONAZISTAS E ELEIÇÕES 2022 NO BRASIL: O QUE PODE ACONTECER?


“Com grupos neonazistas armados, eleição vai ser violenta”

Isadora Rupp29 de jan de 2022

Mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias mostra que as organizações cresceram 258% em pouco mais de um ano. Pesquisadora fala ao ‘Nexo’ sobre riscos para 2022

Piscina de em Santa Catarina com símbolo nazista desenhado em seu fundo

FOTO: REUTERS PISCINA EM SANTA CATARINA COM SÍMBOLO NAZISTA. APÓS SE INVESTIGADO, DONO DA CASA MUDOU O DESENHO E CASO FOI ARQUIVADO

As eleições de 2020 tiveram avanços de diversidade nas Câmaras Municipais pelo país: Belo Horizonte, com Duda Salabert, e Niterói, com Benny Briolly, elegeram as suas primeiras vereadoras trans, ambas do PSOL. Joinville, com Ana Lúcia Martins, e Curitiba, com Ana Carolina Dartora, elegeram suas primeiras vereadoras negras, ambas petistas.

São nomes que compartilham mais do que o ineditismo de suas vitórias: todas sofreram ameaças de morte e insultos. Investigações mostram que os ataques foram orquestrados por uma mesma célula neonazista.

Pesquisadora do tema, a antropóloga Adriana Dias, doutora pela Unicamp, diz que esse tipo de extremismo tende a sair cada vez mais do ambiente digital para desembocar em violência física nas ruas.

Em novembro de 2021, o músico Dennis Sinned, que se declara antifascista, foi agredido em frente a um bar de São Paulo por um grupo neonazista. Um mês antes, a Polícia Civil do Rio havia apreendido material neonazista com valor estimado em milhões de reais.

A certeza da impunidade, segundo Dias, é um dos motivos que explica a expansão extremista no Brasil. De acordo com mapa elaborado pela pesquisadora, houve um aumento de 258% de pessoas que passaram a integrar grupos neonazistas entre dezembro de 2019 e maio de 2021. Um universo que pode chegar a 10 mil novos participantes.

Nesta entrevista ao Nexo, Dias fala sobre as mudanças no perfil e atuação das organizações neonazistas ao longo desses 20 anos no Brasil e explica como elas podem tumultuar as eleições de 2022.

A sra. estuda a atuação do neonazismo no Brasil há 20 anos. Quais as principais mudanças a sra. observa de 2002 até aqui?

ADRIANA DIAS A primeira coisa que a gente percebe é que, no início, o movimento era uma sombra na internet. Um movimento que fazia poucas cenas no mundo não digital e que crescia num patamar ainda controlado. Hoje o movimento virou um movimento de massa, infelizmente. Que está com um crescimento descontrolado e é legitimado por algumas autoridades. Então o que temos hoje é uma situação completamente diferente do que encontrei no início das minhas pesquisas.

Quais são os discursos comuns nesses blocos extremistas, e qual o perfil dos participantes?

ADRIANA DIAS Obviamente eles são antissemitas (preconceito e hostilidade em relação aos judeus) e têm o ódio como estrutura social. Eles odeiam negros, eles odeiam os judeus, eles odeiam LGBTI+, odeiam mulheres progressistas, odeiam pessoas com deficiência, odeiam nordestinos.

Cada tipo de grupo, e estamos falando de 52 tipos diferentes no Brasil, têm uma estrutura de pensamento diferente. Por exemplo: um grupo nacionalista da Ucrânia pensa diferente de um grupo da Ku Klux Klan [movimento surgido nos Estados Unidos que defende correntes reacionárias e supremacia branca]. Alguns grupos são extremamente católicos, outros, mais nacionalistas. A estrutura narrativa do que eles pretendem varia. O ódio continua estrutural.

530

É o número de células neonazistas no Brasil que derivam de 52 grupos organizados. Hoje, existem núcleos nas cinco regiões do país.

Alguns grupos também conseguem convencer mais fácil. Por exemplo: grupos de revisão do Holocausto [extermínio sistemático de seis milhões de judeus pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial] estão crescendo muito, porque o assunto tem tido uma penetração mais profunda no Brasil. Grupos que pregam as ideias da Ku Klux Klan, até pela imagem que tem no mundo, são de difícil penetração. Já grupos neonazistas do leste europeu têm uma tendência a espalhar novas células no Brasil e crescer as suas ideias por aqui, por conta dessa questão da perseguição ao comunismo.

10 mil

É a quantidade de pessoas que passaram a integrar grupos neonazistas no Brasil entre dezembro de 2019 a maio de 2021.

O perfil dos participantes é majoritariamente masculino e branco. Alguns grupos aceitam mulheres, outros não. No Brasil não temos nenhum formado somente por mulheres. Na Argentina existe. No Brasil, os grupos que aceitam mulheres são muito tradicionais, geralmente religiosos, e não deixam elas ocuparem grandes cargos de lideranças. As mulheres ocupam função de estrutura, como ajudar a fazer fichas, fazer comida para reuniões. É um papel logístico.

Um mapa elaborado pela sra. mostra que esses núcleos cresceram 258% de dezembro de 2019 a maio de 2021. Quais motivos explicam esse percentual?

ADRIANA DIAS Primeiro, o movimento vinha crescendo muito fortemente e não houve nenhuma forma de punição. Para você ter uma ideia: um juiz, em uma sentença recente, disse que um grupo de neonazistas que saiu para atacar pessoas com facadas não tinha intenção de matar, só de esfaquear. Quando você tem esse tipo de estrutura de terceiro estado, com judiciário, observação jurídica e polícia que não faz nada para punir um movimento violento que está crescendo, qual é a tendência óbvia desse movimento? É que ele continue crescendo.

Depois, não se fez nenhum esforço educativo para tentar interromper esse movimento, com uma campanha social, nada. E temos o presidente da República [Jair Bolsonaro] que tem o que eu chamo de fala inflamatória. Que tanto legitima como deixar esses grupos em um conforto de garantia. É um cenário que vai crescer muito mais se isso não mudar.

O Ministério Público de Santa Catarina montou um grupo para estudar e lidar com a questão. Mas a ação tem que ser gigantesca. Tem que envolver educação, mídia, propaganda, punição, questionamento da rede social. E não é isso que a gente vê.

As eleições de 2020 foram marcadas pelo avanço da diversidade nas Câmaras, que elegeram mais vereadoras trans e negras. Ambos grupos sofreram ataques e ameaças online, que foram atribuídas a grupos neonazistas. Isso pode se repetir em 2022?

ADRIANA DIAS Vai ser uma eleição violenta. E eu temo porque muitos desses grupos estão armados, paramilitarizados. Eu temo que haja alguma coisa tipo Capitólio [a invasão ao Congresso americano em janeiro de 2021, incitada pelo então presidente Donald Trump, que havia perdido a eleição para Joe Biden]. Eu realmente temo pela segurança das pessoas nas eleições de 2022. Muitas regiões estão suscetíveis, mas há um crescimento em Brasília, Rio de Janeiro e no estado do Rio Grande do Sul, que podem ser palco de algum tipo de ação violenta.

No Brasil, odiar ou expor vulneráveis ao ridículo parece uma coisa tranquila. Nós estamos muito distantes de um país civilizado. O ódio impera nas redes, as redes não estão fazendo a sua parte para manter seus locais de socialização, comunicação e comércio saudáveis. O mínimo que eles deveriam fazer, ganhando tanto dinheiro, era manter a rede saudável e livre de ódio. Não é suficiente as redes só falarem em seus códigos de conduta e em seus termos de uso que não é permitido fazer posts com discurso de ódio. Tem que ter monitoramento sério, com pessoas que realmente compreendam o que isso significa. Não adianta colocar só um algoritmo, ele não dá conta do ódio.

Alguns grupos já estão bastante organizados. Eles não querem que o “comunismo volte ao país”, essa é a tônica, e vão atuar em cima desse tema. O discurso nesses grupos é que eles querem impedir que o Brasil seja governado por pessoas que são simpatizantes de negros, do feminismo [o que eles atrelam aos partidos e figuras de esquerda]. E por aí vai a loucura toda.

Fonte: Nexo Jornal

VOCÊ ACHA QUE A GLOBO FAZ JORNALISMO DE VERDADE? OPINE APÓS A LEITURA RÁPIDA DO TEXTO ABAIXO.


Brilhante análise de Angela Carrato sobre a emissora que há décadas é a maior manipuladora do país e desde sempre joga contra!!

A GLOBO DEBOCHA DOS BRASILEIROS

A mediocridade das edições do Jornal Nacional é por demais conhecida. Mas a edição deste sábado (29/1) conseguiu superar-se neste quesito e também na arte de esconder as notícias do “respeitável público”.
Na política nacional, o grande destaque foi para o lançamento, sem nenhuma importância, da pré-candidatura do deputado federal André Janones, do Avante, à presidência da República. O candidato não tem nenhuma expressão e o partido dele idem. Some-se a isso que nem lançamento oficial foi. Mas o tal deputado ganhou seus quase dois minutos de fama, para criticar o discurso de ódio e a polarização na eleição. Que pena que o tal deputado não lembrou que o JN tem uma responsabilidade enorme nesses dois itens.
Na política internacional, o destaque foi para a situação tensa, de risco de guerra na Ucrânia. O correspondente do JN nos Estados Unidos limitou-se a divulgar a visão do Tio Sam sobre o assunto. Em momento algum foi dito que a Rússia não quer a guerra e quem está forçando o conflito é Biden.
Também não foi dito que os EUA estão cercando a Rússia com bases militares e que a China já se posicionou totalmente favorável à Rússia. Em outras palavras, o JN não informou nada. Divulgou a versão que interessa ao governo dos Estados Unidos.
A única reportagem sobre economia abordou o preço elevado dos combustíveis no Brasil e, como sempre, explicou sem explicar nada. Até porque a explicação não interessa à família Marinho. Esse preço está nas alturas, porque os golpistas estão destruindo a Petrobras, colocando-a a serviço dos grandes acionistas nacionais e internacionais, depois de entregarem o pré-sal às petroleiras estrangeiras a preço de banana.
A cobertura sobre vacinação e pandemia não poderia ser mais burocrática. O número de mortes por covid-19 e variantes aumentando enormemente e o JN naturalizando a situação. Nenhuma crítica ao governo, às aglomerações, à lenta vacinação infantil. A reportagem sobre o jogo da seleção brasileira X Paraguai, na semana que vem, no Mineirão, não tocou em nada relativo a riscos de aglomeração. O jogo terá público ao vivo? Isso não foi informado.
O mais patético de toda a edição, no entanto, ficou com a reportagem sobre o inverno super rigoroso nos EUA, com destaque para a neve com vários centímetros de altura em Manhattan.
O Brasil deve estar às mil maravilhas, mesmo, para o inverno rigoroso no Tio Sam merecer tanto destaque.
No mais, o JN debocha da cara dos brasileiros, quando, numa crise política, econômica, social e pandemica como a que estamos vivendo, faz uma edição propositadamente destinada a esconder o quê interessa à maioria dos brasileiros.
No futuro, esse período vai ser lembrado como o da maior crise da história republicana brasileira que a mídia corporativa, Globo à frente, escondeu.
Que falta faz a regulação democrática da mídia no Brasil!

ONDE ESTÃO OS UMBUS, MEU CARO JOSUÉ | POR GERALDO EUGÊNIO


Onde estão os umbus, meu caro Josué. Por Geraldo Eugênio

O umbu é uma das principais frutas de estação, a exemplo do caju, da manga, do pequi.

Colunista Geraldo Eugenio

Geraldo Eugênio Foto: Divulgação

Frutas de estação

Um dos personagens centrais dessa crônica é o nosso amigo e colega Josué Francisco. Este pesquisador tem dedicado boa parte de suas energias a estudar frutas tropicais de interesse econômico. Dentre os objetos de seu trabalho estão as frutas conhecidas botanicamente como espondias, da família Spondiacea, destacando-se o umbu, a cajarana, o umbu-cajá, o cajá. Neste meio há uma intrusa, a ciriguela, da família do caju e da manga, mas com frutos mais próximos do umbu ou do umbu-cajá.

São espécies encontradas em todos os biomas do Nordeste, desde a Mata Atlântica à Caatinga bem como nos Brejos de altitude e até em áreas com características de Cerrado,

A paisagem seca do semiárido conta com dois exemplos ilustres, o umbu, árvore majestosa, de copa esgalhada e ampla, que, junto com o juazeiro fazem a face do sertão seco. Compartilhando a sombra e o alimento que oferecem. O juazeiro ou juá, com seus frutos consumidos pelos bodes e o umbu, uma verdadeira dádiva alimentar para o nordestino.

O umbu é uma das principais frutas de estação, a exemplo do caju, da manga, do pequi. O caju e a manga hoje são encontrados durante todos os meses nas ruas das cidades nordestinas devido ao uso da irrigação, não sendo o caso de uma manga coquinho, espada ou da típica manga rosa, consideradas como mangas de quintal e, consequentemente disponíveis uma vez ao ano.

Penca, cacho ou litro

A fruticultura artesanal, se assim for denominada, ainda conta com a pitomba, a jaca, o jambo, a carambola, a banana, e outras menos comuns. Normalmente são vendidas adotando-se um outro sistema métrico. A banana, por exemplo, se vende em pencas ou cachos. Também em cacho são comercializados o jambo e a pitomba. Outras frutas sertanejas, por seu tamanho e formato, adotam o litro como unidade tal como o umbu, a ciriguela, a pitomba, quando despencada, a azeitona ou jamelão e a jaboticaba. Algo exótico para quem visita a região. A jaca é algo a parte. É comercializada inteira, em frações ou em sacos plásticos. Levar uma jaca inteira para casa é algo que se faz apenas uma vez, já que o trabalho de cortar, limpar e retirar os bagos de jaca não é coisa fácil ou a manga e o fruta pão que normalmente se vende a unidade.

Com são gostosos nossos umbus

Uma coisa pode ser dita, dificilmente se encontra tanta versatilidade. A cor do fruto varia do amarelo ao verde intenso, quando madurecem, com diâmetros entre um a cinco centímetros de diâmetro. O tamanho das sementes é variável bem como a quantidade e a acidez da polpa.

Nos sertões antigos, não raramente, o que se contava para saciar a fome era uma cuia de umbus e outra de farinha de mandioca. Aos afortunados, um pouco de leite, com o qual se preparava uma deliciosa umbuzada e, quando se dispunha de um refrigerador, um suco, um picolé ou um bom sorvete.

O fato é que, as coisas mudaram, mas a disponibilidade de umbus nas estradas ou no mercado de rua ainda existe. Neste momento, na maioria das cidades sertanejas há de se encontrar mulheres com suas bacias, sacas ou, em alguns casos, balaios, cumprindo com sua lide diária abastecendo as famílias com umbu, ciriguela, maracujá, banana, macaxeira, batata doce e inhame.

Em busca de uma identidade 

Esforços têm sido desprendidos na agregação de valor. Organizações, associações e cooperativas nas últimas duas décadas têm se esforçado para colocar no mercado formal produtos à base de umbu. Há de se reconhecer que não tem sido fácil. Apesar da qualidade e do sabor, o fato de não haver uma oferta durante todo o ano tem limitado a presença dos doces, geleias e dos sucos nas gôndolas dos mercados. Vale a pena o esforço em se tentar disseminar com mais afinco este grupo de frutos e seus produtos.

A ciriguela, por exemplo, ganhou o mercado e já passa a ser encontrada em igual ou maior intensidade do que o umbu. Sua presença quase que não era notada há algum tempo. Já o umbu-cajá, o cajá e a cajarana continuam quase no anonimato na maioria das comunidades.

Vale a pena voltar à carga e construir uma iniciativa mais ampla em prol dessas frutas e do arranjo que delas pode surgir. Afinal é muito egoísmo de nossa parte ver esta delícia de guloseima ficar restrita apenas as feiras dos sertões.

Os habitantes das grandes cidades e aqueles que estão em outras regiões do país merecem conhecer o umbu e seus parentes como também outras frutas regionais.

É bom lembrar que algo similar foi realizado com o kiwi, a partir da Austrália e com o açaí, uma espécie da Amazônia, que hoje conquistaram o mundo.

Fonte: Jornal do Sertão PE

O NEGACIONISMO NUCLEAR: CRÔNICA DE UM DESASTRE ANUNCIADO


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Foto: Reprodução do documentário “O Desastre de Chernobyl” (2006), de Thomas Johnson.  Edição e Manipulação da imagem: Túlio Velho Barreto

Política e

Cidadania

Editor temático: Túlio Velho Barreto

O negacionismo nuclear: crônica de um desastre anunciado

Heitor Scalambrini Costa

O negacionismo do atual desgoverno está presente em vários atos e atitudes de seus membros, em particular do presidente da República. O termo negacionismo é o ato de negar fatos, acontecimentos e evidências científicas. Tal estratégia tem sido utilizada para a formação de uma “governamentalidade” (definição dada pelo filósofo francês Michel Foucault, como sendo o conjunto de táticas e estratégias usadas para exercer o poder e conduzir as condutas dos governados) e, assim, criar as próprias verdades, o que acaba dificultando e confundindo a percepção do público em geral, em relação ao risco de determinados eventos de grandes impactos e repercussões, como, por exemplo, o que tem acontecido com a pandemia do Coronavírus. 

A criação de uma realidade paralela caracteriza-se por negar a própria pandemia, propagandear o uso de remédios ineficazes e questionar a eficácia da vacina. O que contribuiu, nestes dois últimos anos, para ceifar uma quantidade elevada de vidas humanas. Segundo cientistas, se cuidados básicos tivessem sido implementados pelo Ministério da Saúde para enfrentar a pandemia, muitos óbitos teriam sido evitados. 

Outro tipo de negacionismo praticado tem sido o negacionismo nuclear. Com uma campanha publicitária lançada recentemente pela Eletrobrás Eletronuclear, o desgoverno federal escolheu exaltar mentiras, distorcer fatos, manipular e esconder dados sobre as usinas nucleares, cujas instalações no país se tornaram uma prioridade.

O que tem sido constatado após o último acidente nuclear, ocorrido em Fukushima (antes, o de Chernobyl) é que financiadores de “think tanks” (instituições que se dedicam a produzir conhecimento, e cuja principal função é influenciar a tomada de decisão das esferas pública e privada, como de formuladores de políticas) e lobistas defensores da tecnologia nuclear, se valendo de desinformação, estão produzindo campanhas pró usinas nucleares de forma muita ativa e atuante. A falta de transparência é a arma utilizada pelos interesses dos negócios nucleares.

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Cartaz e cena relativos ao desastre nuclear ocorrido em Chernobyl, na Ucrânia, em 26/4/1986. No cartaz, pode-se ler: “Onde será o próximo?”. Reproduções da Internet. Edição e manipulação da imagem: Túlio Velho Barreto.

Negar fatos e evidências científicas, mesmo que elas estejam muito bem explicadas e documentadas é a essência da prática que serve para explicar qualquer tipo de negacionismo, incluindo o do uso de usinas nucleares, que nada mais são do que instalações industriais que empregam materiais radioativos para produzir calor e, a partir deste calor, gerar energia elétrica, como em uma termoelétrica. O que muda nas termolétricas é o combustível utilizado.

No caso do uso da energia nuclear, também conhecida como energia atômica, algumas mentiras sobre esta fonte energética são defendidas, disseminadas, replicadas, compartilhadas e, assim, passam a construir verdades que acabam exercendo pressão, com o objetivo de minimizar e dificultar a percepção da população sobre os reais riscos e perigos que esta tecnologia representa, pois além de ser totalmente desnecessária para o país, ela custa caro e é muito poluente. 

A política energética atual tem se caracterizado pela falta de apoio efetivo às fontes renováveis de energia. Ao contrário, o ministro de Minas e Energia proclama como prioritária a nucleoeletricidade e insiste em priorizar e promover fontes de energia questionadas e, até mesmo, abandonadas pelo resto do mundo, caso do apoio ao carvão mineral para termelétricas e da própria energia nuclear.

No mundo em que vivemos, cada ação praticada implica em riscos. Assim, precisamos decidir sobre quais são aceitáveis, já que eliminá-los é impossível. Não existe risco zero. 

A ocorrência de um acidente severo em usinas nucleares, ou seja, o vazamento de material radioativo confinado no interior do reator para o meio ambiente, é catastrófico aos seres vivos. É bom que se saiba que inexiste qualquer outro tipo de acidente que se assemelha a radioatividade lançada ao meio ambiente e suas consequências e impactos, presentes e futuros.

No caso de usinas nucleares, onde reações nucleares com material físsil produz grande quantidade de calor concentrada em um espaço pequeno, no núcleo do reator, maiores são as consequências de qualquer anomalia acontecer e se tornar uma catástrofe. Quanto maior a complexidade do sistema, mais elementos interagem entre si e maiores são as chances de acidentes, mesmo com todos os cuidados preventivos. Neste caso, existe a possibilidade concreta de se cumprir a Lei de Murphy, segundo a qual “se uma coisa pode dar errado, ela dará, e na pior hora possível”.

Eis algumas mentiras que são propagadas e motivadas pelas consequências políticas e econômicas que representam, e que, portanto, merecem os esclarecimentos devidos:

A energia nuclear é inesgotável, ilimitada

As usinas nucleares existentes no país, e as novas propostas, utilizam como combustível o urânio 235 (isótopo do urânio encontrado na natureza). Este tipo de urânio, que se presta a fissão nuclear, é encontrado na natureza na proporção, em média, de 0,7%. Todavia, é necessária uma concentração superior a 3% para ser usado como combustível. Assim, é necessário enriquecê-lo, aumentando o teor do elemento físsil. Pode-se afirmar que haverá urânio 235 suficiente para mais 30-50 anos, a custos razoáveis, para atender as usinas nucleares existentes.

A energia nuclear é barata

É muito mais cara do que nos fazem crer, sem contar com os custos de armazenagem do lixo radioativo e o desmantelamento/descomissionamento no fim da vida útil da usina (custa aproximadamente o mesmo valor que o de sua construção). Logo, o custo do kWh produzido é próximo e, até mesmo, superior ao das termelétricas a combustíveis fósseis. E, sem dúvida, acontecerá o repasse de tais custos para o consumidor final.

A taxa de mortalidade de um desastre nuclear é baixa

O contato de seres vivos, em particular de humanos, com a radiação liberada por uma usina nuclear tem efeitos biológicos dramáticos e vai depender de uma série de fatores. Entre os quais: o tipo de radiação, o tipo de tecido vivo atingido, o tempo de exposição e a intensidade da fonte radioativa. Conforme a dose recebida, os danos às células podem levar um tempo e podem ser, desde queimaduras até aumento da probabilidade de câncer em diferentes partes do organismo humano. Portanto, em casos de acidentes severos já ocorridos, o número de mortes logo após o contato com material radioativo não foi grande; mas as mortes posteriores foram expressivas, segundo organismos não governamentais. Nestes casos, a dificuldade de contabilizar a verdadeira taxa de mortalidade é ampliada pela mobilidade das pessoas, tendo em vista que quem mora próximo ao local destas tragédias, e que são contaminadas, se mudam e a evolução da saúde individual fica praticamente impossível de se acompanhar. 

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À direita, a mobilização contra a construção de usinas nucleares próximas às cidades de Jatobá, Floresta, Itacuruba e Belém do São Francisco, que ficam a cerca de 400 km do Recife. Foto de João Zinclar. Reprodução do site do Sindicato Químicos Unificados de Campinas e Osasco.

O nuclear é seguro

Embora o risco de acidente nuclear seja pequeno, é preciso considerá-lo, haja vista que já aconteceu, em diferentes momentos da história, e possui consequências devastadoras. Um acidente nuclear torna a área em que ocorreu inabitável, pois rios, lagos, lençóis freáticos e solos são contaminados. Esse tipo de acidente ainda ocasiona alterações genéticas em seres vivos.

O uso da energia nuclear está em pleno crescimento no mundo

Esta é uma falácia recorrente dos que creditam a esta tecnologia um crescimento mundial. Vários países têm criado dificuldades para a expansão de usinas e, até mesmo, abandonando a nucleoeletricidade. Como exemplos, temos a Alemanha, Áustria, Bélgica, Itália, Portugal…. E em outros países, o movimento anti usinas nucleares tem crescido entre a população, como é o caso da França e do Japão.

A energia nuclear é necessária, é inevitável

No caso do Brasil, as 2 usinas existentes participam da matriz elétrica com menos de 2% da potência total instalada. Mesmo que as projeções governamentais apontem para mais 10.000 MW até 2050, ainda assim, a contribuição da nucleoeletricidade será inferior aos 4%. A energia nuclear não é necessária no Brasil, que detém uma biodiversidade extraordinária e fontes renováveis em abundância.

A energia nuclear é limpa

Por princípio, não existe energia limpa, e sim as sujas e as menos sujas. No caso da energia nuclear, ela é classificada de suja, pois é responsável por emissões de gases de efeito estufa ao longo do ciclo do combustível nuclear (da mineração à produção das pastilhas combustíveis), e produz o chamado lixo radioativo. O lixo é composto por tudo o que teve contato com a radioatividade. Logo, entram nessa categoria: resíduos do preparo das substâncias químicas radioativas, a mineração, o encanamento através do qual passam, as vestimentas dos funcionários, as ferramentas utilizadas, entre outros. Parte deste lixo, por ser extremamente radioativo, precisa ser isolado do meio ambiente por centenas ou milhares de anos. Não existe uma solução definitiva de como armazená-lo, portanto, seria um problema não solucionado que as gerações futuras iriam herdar. 

O nuclear resolve nosso problema energético, evitando os apagões e o desabastecimento

A energia nuclear contribui, atualmente, com 2% da potência total instalada no país, podendo chegar a 4% em 2050, caso novas usinas sejam instaladas. O peso das potências totais instaladas, atual e futura, na matriz elétrica é muito inferior ao potencial das alternativas renováveis (por ex.: Sol e vento) disponíveis. Logo, a afirmativa de que a solução para eventuais desabastecimentos de energia pode ser compensada pela energia nuclear é uma mentira das grandes.

O que está ocorrendo no país, caso prossiga a atual política energética nefasta, no sentido econômico, social e ambiental, é um verdadeiro desastre que deve ser evitado. 

PARA SABER MAIS

Livros

Por um Brasil Livre de Usinas Nucleares: por que e como resistir ao lobby nuclear, organizado por Chico Whitaker (Editora Paulinas, 2012)

Bomba atômica! Pra quê?: Brasil e energia nuclear, de Tania Malheiros (Editora Lacre, 2020)

Artigos e estudos

“Energia nuclear é suja, cara e perigosa”, de Chico Whitaker. Acesso em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/08/energia-nuclear-e-suja-cara-e-perigosa-diz-ativista-veterano.shtml

“O Brasil não precisa de mais usinas nucleares”, de Ildo Sauer e Joaquim Francisco de Carvalho. Acesso em https://www.ecodebate.com.br/2012/06/04/o-brasil-nao-precisa-de-mais-usinas-nucleares-artigo-de-joaquim-de-carvalho-e-ildo-sauer/ 

“Porque o Brasil não precisa de usinas nucleares”, de Heitor Scalambrini Costa e Zoraide Vilasboas. Acesso em https://www.ecodebate.com.br/2019/08/29/porque-o-brasil-nao-precisa-de-energia-nuclear-artigo-de-heitor-scalambrini-costa-e-zoraide-vilasboas/

“Insegurança na usina nuclear de Angra 3”, de Célio Bermann e Francisco Corrêa. Reportagem sobre o estudo, originalmente publicado em alemão, pode ser acessado em https://www.ecodebate.com.br/2012/03/07/estudo-revela-inseguranca-na-usina-nuclear-angra-3/  

O AUTOR

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Heitor Scalambrini Costa é mestre em Ciências e Tecnologias Nucleares pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutor em Energética pela Commissariat à I’Energie Atomique-CEA, Centre d’Estudes de Cadarache et Laboratorie de Photoelectricité Faculte Saint- Jerôme/Aix-Marseille III, França. Atualmente, coordena os projetos da ONG Centro de Estudos e Projetos Naper Solar, o NAPER – Núcleo de Apoio a Projetos de Energias Renováveis e o SENDES – Soluções em Energia e Design da UFPE. É professor aposentado dessa Universidade e militante ativista do Movimento Ecossocialista de Pernambuco. Tem diversos livros e artigos publicados sobre o tema no Brasil e exterior.

COMO CITAR ESTE TEXTO

​COSTA, Heitor Scalambrini. O negacionismo nuclear: crônica de um desastre anunciado. (Artigo). In: Coletiva. Publicado em 28 janeiro 20221. Disponível em: https://www.coletiva.org/politica-e-cidadania-n20-o-negacionismo-nuclear-cronica-de-um-desastre-anunciado ISSN 2179-1287.

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