O QUE ACONTECE NA UCRÂNIA


O que acontece na Ucrânia – tópicos históricos para entender o conflito atual

Jones Manoel·25/02/2022··5 minutos de leitura

O que acontece na Ucrânia – tópicos históricos para entender o conflito atual

Seguem considerações históricas sobre a questão Ucrânia, Rússia, OTAN e Estados Unidos. É uma tentativa de resumo histórico. Ao final, deixo indicações de livros e materiais.

Primeiro, é necessário entender a relação secular entre Rússia e Ucrânia. Não é correto pensar dois países em separado com cultura, língua, costumes, religião e afins em todo diferenciados. Milhões de ucranianos falam russo e tem identificação com a cultura russa. Não posso, ainda que minimamente, debater aqui a relação histórica entre Ucrânia e Rússia. Recomendo novamente o longo e até cansativo escrito da Revista Opera. Leiam todo o texto e depois voltem para ler a matéria de Pedro Marin (Ucrânia, 40 Graus).https://googleads.g.doubleclick.net/pagead/ads?client=ca-pub-8637880478143280&output=html&h=391&slotname=1070732806&adk=246237504&adf=246045670&pi=t.ma~as.1070732806&w=375&lmt=1645878140&rafmt=11&psa=0&format=375×391&url=https%3A%2F%2Fdisparada.com.br%2Fo-que-acontece-na-ucrania-conflito-atual%2F&flash=0&fwr=1&wgl=1&dt=1645878139659&bpp=4&bdt=2524&idt=602&shv=r20220223&mjsv=m202202090102&ptt=9&saldr=aa&abxe=1&prev_fmts=0x0&nras=1&correlator=3479714598774&frm=20&pv=1&ga_vid=1092469312.1645878141&ga_sid=1645878141&ga_hid=1270277484&ga_fc=1&rplot=4&u_tz=-180&u_his=1&u_h=812&u_w=375&u_ah=812&u_aw=375&u_cd=32&u_sd=2&adx=0&ady=1098&biw=375&bih=630&scr_x=0&scr_y=0&eid=42531398%2C44750774%2C31062423%2C31064037&oid=2&pvsid=1370225029206258&pem=180&tmod=1101216824&nvt=1&eae=0&fc=1920&brdim=0%2C0%2C0%2C0%2C375%2C0%2C375%2C812%2C375%2C630&vis=1&rsz=%7C%7CeEbr%7C&abl=CS&pfx=0&fu=128&bc=31&ifi=2&uci=a!2&btvi=1&fsb=1&xpc=TTYRgrLf0f&p=https%3A//disparada.com.br&dtd=1209

Primeiro, com o fim da União Soviética e o Pacto de Varsóvia (aparato militar do campo socialista), os Estados Unidos se comprometeram a não expandir a OTAN para o Leste. Foi um pacto ao fim da Guerra Fria para manter a paz no Leste europeu e com a Rússia. Os Estados Unidos, como sabemos, NÃO CUMPRIU o pacto e seguiu expandindo a OTAN para o leste. Várias ex-repúblicas soviéticas entraram na OTAN e os seguidos protestos diplomáticos da Rússia e de outros países foram ignorados.

A Ucrânia, presidida por Víktor Yanukóvytch, atuava com base em um equilíbrio entre boas relações com o “Ocidente” e com a Rússia. É falso que Yanukóvytch tinha uma postura de fantoche da Rússia. Ele era apenas um líder político que não embarcou na linha anti-Rússia. Em 2013, começa uma série de protestos na Ucrânia que rapidamente é apropriado por grupos neonazistas. A Ucrânia tem um longo histórico de um nacionalismo ultraconservador que assumiu um programa nazifascista e tem Stepan Bandera como seu principal símbolo.

Nos protestos de 2013-2014, era possível ver vários símbolos nazistas, fotos de Stepan Bandera e símbolos dos grupos colaboracionistas ucranianos que apoiaram a invasão de Hitler. Esses protestos, simbolizados genericamente pelo Euromaidan, derrubaram Yanukóvytch. Surge um governo neofascista que além de proibir todas as organizações comunistas do país (matar centenas de comunistas e prender outros milhares), adota uma postura abertamente anti-Rússia e de apoio às iniciativas de provocação, como flertar com a OTAN.

Esse governo neofascista da Ucrânia começa a perseguir os chamados russos étnicos, avançar na proibição do uso do idioma russo, adotar uma política eugenista de separar “ucranianos” e “russos” a partir dos descendentes e criar toda uma retórica xenofóbica agressiva. Por razões de identidade cultural, linguística, religiosa e defendendo a memória antifascista da União Soviética, a população de Donetsk e Lugansk se levanta contra o governo neofascista e proclama sua independência via referendo democrático e com amplo apoio popular.

O Governo de Vladimir Putin – ATENÇÃO – não queria reconhecer a independência de Donetsk e Lugansk e buscou um acordo militar com a Ucrânia – o acordo ou protocolo de Minsk – de cessar-fogo e fim da retórica e política eugenista e de flertes com genocídio do governo da Ucrânia. O que aconteceu em seguida? Bem, os EUA seguiram vendendo bilhões em armas para Ucrânia, aumentando sua presença militar no Mar Negro, intensificando o aparato militar da OTAN nas fronteiras da Rússia e instigando o governo da Ucrânia a desrespeitar o Acordo de Minsk.

Esse ponto é fundamental: o Governo da Ucrânia desrespeitando o Acordo de Minsk seguiu BOMBARDEANDO Donetsk e Lugansk e perseguindo “russos étnicos” na Ucrânia e a política da Rússia foi tentar seguir na diplomacia (então, assim, não começou a morrer gente só agora).

O Governo Biden sem popularidade (eleição legislativa chegando) e tentando tirar o mercado de gás europeu da Rússia (buscando, é claro, que os EUA forneçam o gás para Europa), aumenta a tensão e escala a provocação caminhando para colocar a Ucrânia na OTAN. Em resposta, o Governo Putin reconhece – depois de anos – a independência de Donetsk e Lugansk, exige o reconhecimento dos termos do acordo de Minsk e que a Ucrânia não entre na OTAN – e o fim da expansão da OTAN para o Leste.

Como nada disso acontece, e o Governo Biden, em outra provocação inacreditável, afirma que irá destruir o gasoduto Nordstream 2 (e o governo alemão simplesmente fica calado e concorda), o governo Putin reage agressivamente e começa uma operação militar na Ucrânia.

Então, recapitulando.

– Estados Unidos QUEBRAM acordo ao final da Guerra Fria de não expandir OTAN para o Leste
– Em 2014 acontece um golpe neonazista na Ucrânia que coloca no poder um governo anti-russo que aceita ser fantoche do “ocidente”
– Esse governo neofascista da Ucrânia começa a perseguir “russos étnicos” e adota uma retórica genocida. Parte do povo ucraniano reage e declara independência em Donetsk e Lugansk
– Começa uma “guerra civil” na Ucrânia
– Um acordo de paz é fechado – Acordo de Minsk
– EUA instiga o Governo da Ucrânia a cada vez mais quebrar os termos do acordo de Minsk
– Há anos o povo de Donetsk e Lugansk é atacado e BOMBARDEADO (não começou agora)
– Governo Biden aumenta a provocação e avança com a ideia da Ucrânia entrar na OTAN.

Chegamos onde estamos. E não, não se trata de dizer que a Rússia é santa ou algo do tipo. O fato objetivo é: os Estados Unidos e a OTAN buscaram esse conflito, quebraram seguidos acordos de paz e colocaram o Governo russo numa situação onde a resposta militar era previsível.

O que defender? a) acordo de paz entre Rússia e Ucrânia com compromisso da Ucrânia não entrar na OTAN; b) respeito a soberania de Donetsk e Lugansk; c) Fim da OTAN; d) retirada de todas as bases militares dos EUA da Europa; e) fim das provocações do Governo Biden.

Nesse processo, apoiar e fortalecer uma rede de solidariedade aos comunistas da Ucrânia para que eles possam “aproveitar” esse momento para derrubar o regime neofascista, acabar com o anticomunismo oficial e reconstruir a Ucrânia em bases socialistas e anti-imperialistas!

E deixando claro: o inimigo e a contradição principal é a OTAN e o imperialismo estadunidense. Isso não significa qualquer elogio ou considerar Putin é “herói”. Chegam relatos, inclusive, que o governo Putin reprime organizações de esquerda na Rússia nesse momento.

Putin representa um projeto político conservador e burguês. A classe trabalhadora da Rússia e suas organizações revolucionárias vão precisar derrotar Putin e o Rússia Unida. Basta lembrar o ensinamento de Mao Zedong: a contradições principal sem esquecer as demais contradições.

Dicas de livros e sites para acompanhar com mais profundidade a questão

– Sobre a histórica expansão da OTAN para o Leste após o fim da URSS – A esquerda ausente de Domenico Losurdo.
– Para pensar de forma mais geral a estratégia dos EUA – A Segunda Guerra Fria de Muniz Bandeira.
– Para pensar em longa duração histórica o imperialismo estadunidense – Formação do império americano de Moniz Bandeira.
– Para pensar a geopolítica nos últimos anos – A desordem mundial de Moniz Bandeira.
– Para abordar a política externa dos EUA em longa duração histórica e suas fontes teóricas, dois livros – A linguagem do império de Domenico Losurdo e A política externa norte-americana e seus teóricos de Perry Anderson.

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