A AVICULTURA DE PERNAMBUCO


A avicultura de Pernambuco sob risco por Geraldo Eugênio

Um dos pilares do agronegócio do estadoWhatsAppFacebookMessengerPostado em 24/03/2022 2022 19:00 , Agronegócios. Atualizado em 24/03/2022 17:15 

Colunista Geraldo Eugenio

Geraldo Eugênio, Engenheiro AgrônomoDentre as principais atividades econômicas do estado de Pernambuco destaca-se a avicultura. Inicialmente as granjas e abatedouros se concentravam na região metropolitana do Recife e na Mata Norte, logo indo em busca de clima mais ameno e com menor umidade, aportando-se no Agreste, sua principal base, e no Sertão. Há cinquenta anos assumiu local de destaque, porém, de modo comedido e, até diria, humilde, muito embora apresente uma capacidade geradora de empregos e renda superior às demais atividades. Afinal, dezenas de abatedouros de médio e grande porte e milhares de pequenas propriedades se tornaram integradas ao setor.Além disto, os ovos e a carne são apreciados por todos e são fontes proteicas mais baratas e responsáveis pela dieta da população de menor renda, juntamente com a farinha do cuscuz.Venceu desafiosUm dos desafios mais destacados da trajetória dessa cadeia produtiva é o fato de haver se tornado em uma das mais dinâmicas do país, sendo Pernambuco o quinto maior produtor de ovos e o oitavo em carne. A avicultura pernambucana é uma montadora de frangos e ovos. Não dispondo de grãos, o principal componente do custo de produção, nem da genética, uma vez que as raças de galinhas poedeiras ou de frango de corte são de domínio de empresas de reprodução animal, os empresários locais conseguiram montar um sistema produtivo capaz de enfrentar as ameaças anteriores.Além da dinâmica empresarial e o fato de, desde o início não ter sido uma atividade dominada por conglomerados ajudou bastante. Entretanto, é importante lembrar o papel indutor do estado, como parceiro da avicultura. Em 1995, por decisão do Governo estadual, o frango e o ovo passaram a fazer parte da merenda escolar. Não foram poucos os desafios em convencer as merendeiras e afastar o vício das licitações que preferiam oferecer almôndegas de carne bovina processadas em frigoríficos de outras regiões, de qualidade duvidosa.Durante algum tempo a aquisição pública não definia o mercado, mas com aproximadamente 12% de vendas garantidas, a gestão do negócio se tornava melhor. Trabalhou-se no sentido de limitar o comércio de frango congelado, em vários casos, com elevado teor de água, ofertado nos supermercados locais por valores inferiores ao produto regional.Neste sentido, os governos estadual e federal foram determinantes para garantir o fornecimento de milho, em particular quando os preços fugiam do controle. Agora chegou o momento de uma nova negociação visando dar sustentabilidade e longevidade ao setor.Conviver com risco e atravessar a criseVale chamar a atenção que uma saca de milho antes da pandemia custava R$ 45,00, chegou a ser vendida a R$120,00 e não consegue baixar de 100 reais. A saca de soja é negociada por volta de R$ 200,00, a mesma reação não se deu com o preço dos ovos e do frango. Houve aumento, mas não acompanhou o preço dos insumos. É bom lembrar que até pouco tempo uma bandeja com 30 ovos custava R$13,00 e um quilo de carne de frango entre R$ 6,00 e R$ 7,00. Em sendo um alimento do mais pobre, em se elevando o preço, proporcionalmente se compromete o consumo. Aqui não se aplica o aumento do preço de modo fácil.Agora o cenário é outro. O país é um dos principais exportadores de milho, de soja, de farelo e de carne bovina, também de carne de frango, mas não tem conseguido harmonizar-se com a produção regional não apenas de Pernambuco, mas de Alagoas, Paraíba e do Ceará. Inflação dos insumos tem sido um duro golpeFalando com lideranças do setor esta semana um alerta foi aceso. Em não havendo um redesenho da cadeia em um grande diálogo que inclua os granjeiros, abatedouros, distribuidores e supermercados, a tendência é a falência de muitas empresas. Há uma similaridade entre o setor avícola e de lácteos. A morte não é abrupta. Ela se dá por um conjunto de fatores e pelo fato de o capital empresarial ser erodido lentamente.No início a sensação é que se trata de uma ameaça passageira e logo a vida volta ao normal, mas depois de algum tempo o empresário sente que não está conseguindo ter lucro e a seguir, se vê numa situação que não consegue honrar os compromissos financeiros.Retomada urgente de diálogoUrge uma retomada do diálogo antes de chegarmos ao terceiro estágio do sacrifício. Ainda é tempo, e mais uma vez a lição que fica é que o que se vende sobre a eficiência do agronegócio tal qual posto não é real. Restaram os grandes conglomerados industriais tendo como base um conjunto mínimo de intermediários, mas desaparecerá o pequeno e médio empresário, principal pilar do setor avícola até o momento.As implicações sobre a economia do Agreste são de tal ordem que merece uma reflexão e tomadas de medidas urgentes. Aqui não é o caso de se tratar de empresários que estão criando

situação calamitosa para cobrar mais uma renegociação de dívida. São pequenos e médios empreendedores que com a força de trabalho e o patrimônio familiar construíram um dos segmentos mais dinâmicos da economia pernambucana nas últimas décadas. Que se esteja atento.

Fonte:

Jornal do Sertão

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