A RECONSTRUÇÃO APÓS AS SECAS | POR GERALDO EUGÊNIO – UFRPE


A reconstrução após as secas | por Geraldo Eugênio

Discute-se o tema secas nesta coluna com uma certa frequência. Desde que se considera como uma de nossas irmãs e frequentadoras do ambiente nordestino, não há como desconsiderar ou não prestar atenção em seus desígnios.WhatsAppFacebookMessengerPostado em 07/04/2022 2022 19:00 , Agronegócios. Atualizado em 07/04/2022 16:31 

Colunista Geraldo Eugenio

Geraldo Eugênio, Professor Titular da UFRPE-UASTA seca não surge ao acasoDiscute-se o tema secas nesta coluna com uma certa frequência. Desde que se considera como uma de nossas irmãs e frequentadoras do ambiente nordestino, não há como desconsiderar ou não prestar atenção em seus desígnios. Para quem é do semiárido (Sertão + Agreste) não há como negar a familiaridade com as secas desde a tenra infância.As previsões climáticas não chegam a ser precisas quando se trata de períodos além de poucos meses. Os dados meteorológicos da região ainda não são suficientes nem trabalhados na intensidade que possam oferecer previsões com alta acuidade.Entretanto, todos os estados da região Nordeste, somando-se a eles Minas Gerais e Espírito Santo dispõem de uma rede de PCD´s e estações meteorológica convencionais que permite a elaboração de um mapa mensal da situação da seca, o Monitor de Secas, além de contar com alguns outros institutos e laboratórios, como é o caso do LAPIS-UFAL – Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite permite, tal qual uma equação, visualizar adotando a tecnologia de NDVI, uma imagem espectral transformada em uma figura colorida que permite o acompanhamento da tendência da cor e consequentemente da vegetação e, por dedução, do suporte forrageiro de uma região.Importantes conquistas foram alcançadas nas últimas duas décadas. Apesar disso, nossa visitante ainda nos causa surpresas. E muitas vezes bate à porte de modo alvoroçado e não comumente finca pé e não quer continuar a viagem.O desenrolar da seca e seus desdobramentosO dia a dia de um período de seca é de nosso conhecimento. A cor cinza da vegetação domina a paisagem, a água superficial desaparece, o milho e o feijão não vingaram e mal produziram uma rala palhada para os animais que, por sua vez, sobrevivem sob condição de subnutrição chegando ao que imprensa tanto gosta de mostrar: animais que já não andam e morrem à beira do que restou de cerca sem ter o que comer ou água para beber.Os mais precavidos contam com alguma silagem e aqueles que fizeram o dever de casa, com uma área de palma forrageira que nada mais é do que a salvação do rebanho. Também foi comentado o aspecto estratégico do cultivo das espécies de palma, seja do gênero Opuntia ou Nopaleae para o semiárido brasileiro. Dentre as tecnologias disponíveis esta forrageira que evitou uma redução mais drástica dos rebanhos e que permitiu, ainda no último ciclo de seca, a partir de 2015, a recomposição da produção de leite e carne no Nordeste.As primeiras chuvasO ritual é o mesmo. Após a longa estiagem e as primeiras chuvas que ocorrem de forma consistente, é como se tudo ficasse para o passado e jamais nossa irmã voltaria a visitar a família. Primeiro esta hipótese é falha pela ciclicidade e previsibilidade dos eventos e, em segundo, são raros os imóveis que têm uma levantamento contábil do que representou um período de sete anos, tal qual na história bíblica, enquanto José tentava convencer o governante do reino em deixar seu povo partir.Facilmente se esquece dos litros de leite que deixaram de ser coletados, das novilhas que não reproduziram, das arrobas perdidas, dos valores gastos na compra de rações, nos açudes que secaram, nas cercas destroçadas e nas casas e imóveis ruídos nas propriedades. Também não se contabiliza as áreas de pastos resumidos a cinzas ou as nascentes que não voltarão a jorrar. Um ciclo de seca é impiedoso e no estágio atual da civilização não há como tratá-lo com prescrições de dezenas de anos atrás. O país é outro, somos mais prósperos, mais ricos e mais qualificados.O pós-secaNo dia 31 de março de 2022, a página da Câmara dos Deputados publicou a seguinte matéria: Governo edita medida provisória para liberar R$ 1,2 bilhão a agricultores atingidos pela seca. Municípios do MS, PR, RS e SC decretaram emergência ou estado de calamidade pela falta de chuvas que afetou a safra 2021/2022.Uma ótima ação que deveria ser lembrada todas as vezes que ocorre uma seca na região Nordeste. Normalmente períodos que se estendem por vários anos. Não é este o tratamento que a região tem recebido. Esta iniciativa demonstra de modo simples e cristalino como se devem ser tratados aqueles que vivem no semiárido no período pós-secas. Um momento de reconstrução.Aquele instante em que, não sendo observada a presença do governo (federal, estadual ou municipal), restará a desolação, as propriedades abandonadas, o rebanho que já não será reposto, a dificuldade em se pagar algum contrato com os bancos oficiais, a venda a preço infinitamente inferior da fazenda, o deslocamento da família para as cidades e a inclusão deste cidadão e cidadã em plena capacidade produtiva na relação dos programas sociais e das aposentadorias.Reconheça-se a habilidade e a forma com que os líderes e parlamentares dos estados atingidos pela seca de 2020/2021 ocorrida no centro-sul do país e que esta medida que também contou com a plena aprovação dos que fazem as bancadas do Nordeste sirva de exemplo de forma que no próximo período de secas no semiárido não esqueçam de que após o retorno das chuvas há a necessidade de se recompor o empreendimento, a fazenda, a empresa destroçada, na maioria das vezes.

Fonte: Jornal do Sertão

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