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PRÉ-HISTÓRIA: REFLEXÃO SOBRE SUA IMPORTÂNCIA PARA A EDUCAÇÃO FÍSICA


La prehistoria: reflexión sobre su importancia para la Educación Física

Universidade Estadual de Ponta Grossa, PR

Mestre em Ciência da Motricidade Humana

Doutorando em Ciência do DesportoAlfredo Cesar Antunes

alfredo.cesar@hotmail.com

(Brasil) Resumo

          O objetivo deste texto é analisar a importância do estudo da pré-história para a preparação profissional em Educação Física. Para isso, utilizo os argumentos da postura bípede na evolução do ser humano. Também, são apresentadas as características dos exercícios físicos neste período histórico e a importância da interdependência dos aspectos sociais, culturais e biológicos para a evolução humana.

          Unitermos: Pré-história. Bipedismo. Educação Física.Resumen

          El objetivo de este trabajo es analizar la importancia del estudio de la prehistoria para la preparación profesional en educación física. Para ello, utilice los argumentos de la postura bípeda en la evolución humana. También se presentan las características del ejercicio en este periodo histórico y la importancia de la interdependencia de la evolución social, cultural y biológica en los seres humanos.

          Palabras clave: Prehistoria. Bipedismo. Educación Física.Abstract

          The aim of this paper is to analyze the importance of the study of prehistory for professional preparation in physical education. For this, use the arguments of bipedal posture in human evolution. It also presents the characteristics of exercise in this historical period and the importance of the interdependence of social, cultural and biological for evolution in humans.

          Keywords: Prehistory. Bipedalism. Physical Education.EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 15, Nº 166, Marzo de 2012. http://www.efdeportes.com/

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    Qual a importância do estudo da pré-história na preparação profissional em Educação Física? Poucos estudos abordam as atividades físicas/exercícios físicos neste período. Muitas vezes é abordado de maneira introdutória, sem o devido valor que mereça este conteúdo.

    A Pré-História é o período anterior ao aparecimento da escrita, por volta de 4000 a.C. Seu estudo depende da análise de documentos não-escritos, como restos de armas, utensílios, pinturas, desenhos. O gênero Homo apareceu entre 4 milhões de anos a.C. (ARRUDA; PILETTI, 1995, p. 11).

    O estudo do bipedismo pode ser um exemplo muito rico para a compreensão desta importância. Talvez, a postura bípede seja a característica mais importante do ser humano e, particularmente, para o estudo das atividades físicas/exercícios físicos.

    Tudo começou quando o homem primitivo sentiu a necessidade de lutar, fugir ou caçar para sobreviver. Assim o homem à luz da ciência executa os seus movimentos corporais mais básicos e naturais desde que se colocou de pé: corre, salta, arremessa, trepa, empurra, puxa e etc. (MORAES, 2009, p.1).

    Para alguns autores, o andar bípede seria a real causa do desenvolvimento das demais características humanas. Esta particularidade humana teria permitido ao ser humano liberar as mãos para realizar outras tarefas, como construir e manipular ferramentas. Assim, os pés tornaram-se a base de sustentação de todo o corpo, e as mãos se especializaram em movimentos refinados (coordenação motora fina).

    Segundo Massada (apud SILVA, 2009, p. 7)

    […] o libertar das mãos permitiu o manuseamento de objetos, que com o tempo aperfeiçoou e deu origem ao crescimento do cérebro. Este aumento fez crescer a inteligência e a memória terá permitido a aprendizagem de ações manipulativas complexas e a criação e produção da linguagem […] a estruturação social foi sendo cada vez mais complexa, acompanhando um modo de vida em evolução. Assim, o Homem conquistou a Terra, tornando-se no Ser mais inteligente que conhecemos.

    Essa argumentação já seria suficiente para mostrar a importância do estudo da pré-história para a Educação Física, pois a capacidade de caminhar, correr, manipular objetos são habilidades essenciais para a prática de atividades físicas e esportivas. Porém, outras conseqüências desta evolução também revelam contribuições para a reflexão na área de Educação Física e esportes.

    Como exemplo, é interessante observar, conforme nos mostra Silva (2009), que o futebol exige habilidades específicas dos membros inferiores, exigindo dos pés o que teria sido reservado às mãos no processo evolutivo (movimentos refinados). Porém, esta afirmação fica no plano superficial, pois foi justamente […] esta evolução que permitiu ao Homem criar o Futebol e ter capacidade para o interpretar, para o jogar […] (SILVA, 2009, p. 8).

    Uma pesquisa desenvolvida pelo antropólogo Sockol (apud OLIVIERI, 2009) e publicada no periódico “Proceedings of the Natural Academy of Sciences”, sugere que o ser humano passou para o andar bípede para economizar energia. Gasta em torno de 25% menos energia do que o chimpanzé, que anda com o auxílio dos braços. Também aponta outras características que diferenciam os humanos de outros primatas: o maior volume do cérebro; o pé como plataforma flexível para caminhar e correr; o polegar opositor da mão permite o ser humano agarrar e realizar movimentos sutis; e a ausência de pelos que permite a pele dissipar o calor produzido pelo esforço.

    Assim, uma característica motora, a postura bípede, seria a base da evolução do cérebro, responsável pelos aspectos cognitivos; como conseqüência, a liberação das mãos para movimentos refinados e criação de objetos, ferramentas, armas, etc. Estas ‘novas possibilidades’ teriam permitido ao ser humano a constante produção material, valores, idéias, crenças, ou seja, uma constante construção cultural. Os aspectos biológicos, culturais e sociais interagem de forma simultânea e sobreposta, é impossível determinar maior ou menor importância de um aspecto ou de outro. Uma evolução biológica e/ou cognitiva pode ter facilitado um salto cognitivo e/ou biológico que, por sua vez, possibilitou o aprimoramento biológico e/ou cognitivo, de forma contínua e ininterrupta. Toda essa interação produziu e produz a cultura humana.

    O aperfeiçoamento das ferramentas, a adoção da caça organizada e as práticas de reunião, o início da verdadeira organização familiar, a descoberta do fogo e, o mais importante, embora seja ainda muito difícil identificá-la em detalhe, o apoio cada vez maior sobre os sistemas de símbolos significantes (linguagem, arte, mito, ritual) para a orientação, a comunicação e o autocontrole, tudo isso criou para o homem um novo ambiente ao qual ele foi obrigado a adaptar-se. (GEERTZ, 2008, p. 34-35).

    Algumas explicações sobre a origem do bipedismo podem exemplificar e esclarecer este argumento. Bonito (1996) apresenta três explicações: adaptação climática, melhor vigilância e adaptação social.

    Com relação à adaptação climática, o autor explica que as alterações ambientais que levaram a modificações globais e regionais tornaram o ambiente mais seco e com poucos recursos hídricos.

    As explicações usuais e ordinárias atribuem a estas modificações ecológicas a maior responsabilidade para a linha evolutiva que se seguiu. De fato, existem correlações fortes entre o ambiente e a configuração biológica-social que ele obriga. (BONITO, 1996, p. 36).

    A necessidade de vigiar os arredores levou a um comportamento de sentinela, ou seja, a postura ereta facilitaria reconhecer predadores e presas.

    Os seus olhos estavam localizados frontalmente, permitindo uma visão estereoscópica. O manter-se erecto tornou-se indispensável para alargar o seu campo de visão ou para realizar reconhecimentos. (BONITO, 1996, p. 37).

    No que se refere à adaptação social, o autor supracitado explica que a postura bípede estaria ligada à intimidação do inimigo, do próprio grupo ou de grupos externos mais fortes. Junto com estas vantagens da bipedia estão os comportamentos de comunicação e de sentinela. Assim, resolveriam seus conflitos sem agressividade, sem necessidade de ferimentos ou mortes, aumentando a esperança de vida.

    […] o processo de evolução no Homem não pode ser unicamente visto como um processo biológico, nem espiritual ou sócio-cultural. Urge considerar uma morfogénese complexa e multidimensional, resultado de interferências genéticas, ecológicas, cerebrais, sociais e culturais (BONITO, 1996, p. 38).

    Estas interferências podem ser analisadas, de forma clara, com as palavras de Geertz (2008, p. 35, grifos do autor)

    À medida que a cultura, num passo a passo infinitesimal, acumulou-se e se desenvolveu, foi concedida uma vantagem seletiva àqueles indivíduos da população mais capazes de levar vantagem – o caçador mais capaz, o colhedor mais persistente, o melhor ferramenteiro, o líder de mais recursos – até o que havia sido o Australopiteco proto-humano, de cérebro pequeno, tornou-se o Homo sapiens, de cérebro grande, totalmente humano. Entre o padrão cultural, o corpo e o cérebro foi criado um sistema de realimentação (feedback) positiva, no qual cada um modelava o progresso do outro, um sistema no qual a interação entre o uso freqüente das ferramentas, a mudança da anatomia da mão e a representação expandida do polegar no córtex é apenas um dos exemplos mais gráficos. Submetendo-se ao governo de programas simbolicamente mediados para a produção de artefatos, organizando a vida social ou expressando emoções, o homem determinou, embora inconscientemente, os estágios culminantes do seu próprio destino biológico. Literalmente, embora inadvertidamente, ele próprio se criou.

    A partir de um olhar mais específico, é possível analisar que a característica bípede (e todas as interações apresentadas acima), permitiu ao ser humano, durante seu processo de evolução, a possibilidade de uma variedade de deslocamentos, entre eles a corrida, a prática de muitas modalidades esportivas e exercícios físicos.

    Nesta linha de raciocínio, outra pesquisa oferece novos elementos para valorizar o estudo da pré-história na Educação Física. Uma pesquisa realizada por Bramble e Lieberman (2004), defende que a capacidade do ser humano correr longas distâncias (endurance) é responsável por sua postura bípede. A facilidade em dissipar calor por causa da ausência de pelos é uma das características essenciais para esta capacidade. Diferente de outros animais, o ser humano não é um bom corredor de velocidade (Sprint), mas ótimo corredor de fundo, como a maratona. A necessidade em disputar a comida com outros animais, nas savanas africanas, percorrendo longas distâncias, levou o ser humano à postura bípede.

    A evidência fóssil indica que a corrida de resistência é a capacidade decorrida do gênero Homo, aproximadamente dois milhões de anos atrás, e pode ter sido fundamental na evolução da configuração do corpo humano. Atualmente, a corrida de longa duração é uma das principais formas de exercício e lazer, mas as suas raízes podem ser tão antigas quanto a origem do gênero humano (BRAMBLE E LIEBERMAN, 2004).

    Portanto, a postura bípede, é defendida por vários autores, como a principal característica que permitiu o ser humano continuar seu processo de evolução. Esta perspectiva é um contraponto à idéia de outros autores que defendem a evolução do cérebro como sendo o principal fator do desenvolvimento da espécie humana. Porém, conforme argumentado acima, é mais coerente compreender que a evolução humana é marcada pela constante interação entre os aspectos biológicos, sociais e culturais.

    Dessa forma, a partir destes aspectos evolutivos, é possível identificar e compreender as características, das atividades físicas ou exercícios físicos, na pré-história. “O homem pré-histórico […] Realizava toda sorte de exercícios naturais, praticando uma verdadeira educação física espontânea e ocasional”. (RAMOS, 1982, p. 16).

    O autor supracitado, afirma que os exercícios físicos do ser humano derivam de “[…] quatro grandes causas: a luta pela existência, os ritos e cultos, a preparação guerreira e os jogos e práticas atléticas” (p.52).

  • Luta pela existência: práticas utilitárias; ensaios e erros; atacar e defender-se; busca de alimentos; inicialmente nômades depois fixação no solo com agricultura, criação de animais e troca de produtos; andavam e caminhavam longas distâncias; fuga de animais; caça; pesca; nado; lutas corporais; arco e flecha; construção de armas (pedra lascada, polida e metais); construção de barcos e jangadas; “[…] podemos dizer que o primeiro professor de educação física foi, sem dúvida, o homem que ensinou a seu filho a posição erecta e o caminhar” (p.52).
  • Ritos e cultos: sobrevivência como favor dos deuses; dança mística e lúdica; agradecimento; festividades religiosas; culto aos mortos; cerimônias fúnebres (p.54-55).
  • Preparação guerreira: lutar pela vida; vitória nas contendas; “[…] as tribos impunham-se pelo valor dos seus guerreiros” (p.55).
  • Jogos e práticas atléticas: maias e astecas, ‘jogo de pelota’, jogo semelhante ao tênis; índios do norte da América, ‘serpente de neve’, ‘aro’, ‘lacrosse’- espécie de hóquei; esquimós, ‘jogos de pelota’ com pele de foca ou rena, ‘kayack’, corrida sobre a neve; Austrália, espécie de rúgbi, bola com couro de canguru, dardo e bumerangue; México, índios ‘Taharumaras’, corridas de resistência, caçada, arco e flecha; incas e astecas, mensageiro- ‘chasquis’; Estados Unidos, índios cavaleiros, caçadores de bisão e boi selvagem; Brasil, índios guaicurus e charruas, grandes cavaleiros (p.55-57).

    Enfim, com base nos argumentos apresentados, fica evidente que a pré-história é um período muito rico de informações sobre a evolução das atividades físicas/exercícios físicos. A análise e interpretação destes dados, e muitos outros não abordados aqui, permitem uma reflexão sobre nossa prática atual e possibilita pensar a produção de novos conhecimentos (pesquisas) sobre este período histórico no campo da Educação Física.Referências

  • ARRUDA, J.J.; PILETTI, N. Toda a história: história geral e do Brasil. São Paulo: Ática, 1995.
  • BONITO, Jorge Manuel Rodrigues. Os nossos primeiros passos de adaptação social. Revista Brotéria Genética, Lisboa, XVII (XCII), p. 33-41, 1996. Texto transcrito por Joaquim Badagola Bonito, em Fevereiro de 2003. Disponível em: http://evunix.uevora.pt/~jbonito/images/BG2.pdf. Acesso: 17/02/2012.
  • BRAMBLE, Dennis M.; LIEBERMAN, Daniel E. Endurance running and the evolution of Homo. Nature, v. 432, p. 345-352, 18 november, 2004. doi:10.1038/nature03052 Review.
  • GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
  • MORAES, Luiz Carlos. História da Educação Física. Cooperativa do Fitness. 17/1/09.
  • OLIVIERI, Antonio Carlos. Andar sobre dois pés é característica essencial do ser humano. Da Página 3 Pedagogia & Comunicação. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/atualidades/ult1685u300.jhtm?action=print, Acesso em: 17/07/2007.
  • RAMOS, Jair Jordão. Os exercícios físicos na história e na arte: do homem primitivo aos nossos dias. São Paulo: Ibrasa, 1982 (publicado em 1983).
  • SILVA, Alexandre Moreira. Uma época de desafio: conduzir ao sucesso os juniores A do Leixões Sport Club. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Desporto, Universidade do Porto, outubro de 2009.
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