CAMINHO DAS ÍNDIAS

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Índia: o passado do futuro

Na civilização mais antiga do mundo, ritos milenares convivem com a modernidade, graças à força da tradição oral, à religiosidade aguda e à extraordinária mitologia. Não é à toa que traços dos nômades vindos da África há 70 mil anos ainda sobrevivam no país
por Mariana Sgarioni

Virumandi é um pequeno agricultor de 30 anos que vive com sua família nas montanhas de Tamil Nadu, no sul da Índia. Como todos de seu povoado, ele se casou com uma prima de primeiro grau, repetindo um rito milenar. Mal sabia que, graças a essa tradição, estava ajudando a preservar um dos mais valiosos e antigos patrimônios genéticos de que se tem notícia. No ano passado, pesquisadores da Universidade de Madurai detectaram no DNA de Virumandi rastros dos primeiros migrantes da humanidade. Ou seja, de pessoas que viveram há incríveis 70 mil anos e que estavam entre os primeiros Homo sapiens, anteriores mesmo ao surgimento da linguagem, que só apareceu há cerca de 15 mil anos. É fascinante imaginar que milênios depois, apesar de todas as migrações, invasões, guerras e colonizações, traços de um passado tão remoto ainda se encontrem na Índia. Segundo o cineasta francês Jean-Claude Carrière, nesse país de milhares de idiomas, milhares de deuses, aromas, sabores, e de 1,1 bilhão de habitantes, o “passado não é o passado”. “Aqui, ele é apenas uma das formas do presente, que o assimila e o alonga”, escreveu.

Além do hábito dos moradores de Tamil Nadu de se casarem com seus primos, o país tem uma fortíssima tradição oral e um sentimento extremo de religiosidade. Esses dois aspectos se refletem numa mitologia incontida, que se multiplica constantemente em deuses e cerimônias diferentes e é responsável por manter o passado tão vivo. Os novos não destroem os antigos, mas se acumulam e se misturam. Alguns ritos continuam idênticos ao que sempre foram, geração após geração. Um exemplo são os cânticos religiosos (ou mantras), sons milenares, semelhantes aos dos pássaros, entoados até hoje da mesma maneira
como o faziam os homens antes de saberem falar. Isso tudo em um país que se tornou um dos gigantes da modernidade, pólo tecnológico, com
uma economia que cresce mais de 8% ao ano.

Pois no sangue do agricultor contemporâneo Virumandi e no de todos de seu povoado, os pesquisadores encontraram o gene M130, o mesmo que estava na composição genética dos primeiros homens que saíram da África, seguiram a costa do mar da Arábia e foram parar no sul da Índia. Pode-se dizer que todos aqueles que não são africanos têm suas origens nesses primeiros indianos que habitaram o subcontinente, que incluía, além da Índia, a região dos atuais Paquistão e Bangladesh. A fertilidade das terras locais fez com que alguns decidissem ficar, enquanto os demais continuaram migrando e povoando o mundo.

Passado arqueológico

Os que ficaram organizaram-se. Pesquisas arqueológicas feitas no vale do rio Indo, a partir do século 19, identificaram uma das primeiras civilizações do mundo, maior que as do Egito e da Mesopotâmia juntas, ocupando mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados de território. Indicaram, também, que essa sociedade, a civilização do vale do Indo, tinha uma estrutura bastante desenvolvida e viveu seu ápice no período aproximado entre os anos 3000 e 2000 a.C. As ruínas das cidades de Moenjodaro e Harappa, os principais sítios arqueológicos dessa população antiga, mostram, ainda, que ela era urbana, mercantil e agrícola. Dividida em bairros, cortados por ruas, formando quarteirões geometricamente exatos, Moenjodaro (ou Colina dos Mortos) é conhecida
como “cidade moderna da Antiguidade”. As casas eram simples, feitas de tijolo e madeira, mas com infra-estrutura sofisticada: cisternas, salas de banho, equipamentos sanitários, andares superiores e inferiores. Havia também edifícios públicos que, de acordo com os estudiosos, devem ter servido a uma administração central, composta principalmente
por autoridades religiosas.

Essa civilização precoce, dirigida por sacerdotes, é o ponto a partir do qual se traçam as raízes do hinduísmo. Foram encontradas figuras femininas de barro que, acredita-se, representavam uma deusa-mãe, mais
tarde personificada como Kali, divindade assustadora, de identidade imprecisa, que costuma ser associada ao tempo e à morte. Outra escultura desse período é uma figura masculina, com três faces, sentada em posição de ioga e rodeada por quatro animais. É uma das mais antigas representações do deus Shiva, aquele que dança, enquanto faz o mundo se mover e as ilusões se afastarem, símbolo do princípio criativo. Pilares de pedra preta, da mesma época, também foram interpretados como o falo desse deus poderoso.

A civilização do Indo entrou em declínio a partir da invasão dos ários, ou arianos. Esse povo vivia provavelmente na Ásia Central, no planalto que hoje é o deserto de Gobi, entre o norte da China e o sul da Mongólia. Seus guerreiros eram altos e tinham a pela clara. Penetraram pelo noroeste da Índia, região do Punjab, entre 1500 e 800 a.C. Alguns desses invasores excursionaram para o oeste e se tornaram os antepassados dos gregos, celtas e latinos. Outros ficaram no vale do Indo e dominaram os habitantes locais, que, a essa altura, já eram indianos de pele escura, descendentes daqueles que tinham vindo da África. A civilização do vale do Indo (chamada dravidiana) acabou por força da presença ariana, mas a língua que ela engendrou é falada até hoje, em diversas regiões do sul da Índia.

A vez dos Vedas

A invasão ária foi determinante para o início de uma nova civilização: a védica. Ela criou os Vedas, poemas e hinos sagrados, bastante complexos, que trazem as regras, a inspiração e o sentido do hinduísmo. Toda a base do que é a cultura da Índia atual está nos Vedas, cuja autoria é atribuída ao próprio Krishna, encarnação de Vishnu, um dos três deuses mais importantes da religião (ao lado de Brahma e Shiva). Compostos em sânscrito, eles descrevem rituais politeístas e normas sociais, em que se destaca a supremacia dos sacerdotes, ou brâmanes. É lá que está também a divisão da sociedade por castas. “No sistema de castas, a vaca é considerada mais pura que os brâmanes. Não pode ser morta nem ferida e tem passe livre para circular pelas ruas, sem ser incomodada por ninguém”, afirma Dwijendra Narayan Jha, professor da História da Universidade de Délhi. O sistema de castas é o calcanhar-de-Aquiles da sociedade indiana e ainda exerce forte influência na divisão de classes do país, embora o Estado moderno lute contra ele por meio de políticas públicas que buscam equiparar os direitos entre os cidadãos. Os escritos antigos dividiam as pessoas “de cor” (origem do termo casta, em sânscrito), ou seja, os não-brancos ou não-arianos, de acordo com status e distribuição do trabalho. Essa segmentação valia para sempre, o que significa que não era possível haver nenhuma mobilidade social dentro da família. Em tese, a casta de uma pessoa e de todos os seus descendentes já está definida no seu nascimento, porque, do ponto de vista da religião, cada um nasce com um carma que vai precisar cumprir para que sua próxima vida seja mais afortunada. Quem nasce numa casta alta, por exemplo, é porque teve uma vida passada espiritualmente elevada, portanto acumulou um bom carma e foi recompensado nesta vida.

Por isso, os sacerdotes (brâmanes), situados no ponto mais alto das castas, são protegidos e não devem trabalhar. Sua responsabilidade é dedicar a vida ao cultivo da espiritualidade e à transmissão de seus ensinamentos. Quem está nas castas inferiores é que deve trabalhar por eles. No livro Índia – Um Olhar Amoroso, de 2001, Carrière conta ter esbarrado, nos jardins de Bombaim (atual Mumbai), com homens usando “turbantes magníficos, tendo à sua volta finas hastes metálicas, pedaços de algodão e óleo”, representantes da inusitada “casta dos
limpadores de orelhas”. Mas tentar fugir de seu destino, ou de sua casta,
pode ser uma decisão de alto risco. Quem ousa (ou já ousou um dia) tentar melhorar de vida, procurando um emprego melhor ou casando com alguém de casta diferente, por exemplo, pode se tornar um pária, o pior castigo para qualquer indiano. Os párias, tradicionalmente, não tinham direito a nada, eram obrigados a fazer os trabalhos mais degradantes e sequer podiam comprar roupas – precisavam tirar as vestimentas dos cadáveres para usar. Suas casas (ou taperas) eram construídas com objetos encontrados no lixo, como louças quebradas

Buda, o iluminado

Os escritos védicos, contudo, não traziam apenas as castas. Estão lá regras de casamentos, dietas alimentares, além da complexa estrutura do politeísmo indiano. “Por que ter apenas um deus, quando se pode ter
milhões?”, brinca o historiador indiano Ram Nath, ex-diretor do departamento de História na Universidade de Rajastão. Os Vedas também contêm a base da medicina ayurvédica, fundada pela civilização do Indo e praticada até hoje por cerca de 400 mil médicos em
toda a Índia. Dos Vedas saíram, ainda, os grandes épicos indianos, como o Mahabarata, com cerca de 200 mil versos em sânscrito, que conta histórias dos deuses. É um texto sagrado que contém o Bhagavad Gita, outro texto fundamental para o hinduísmo. O mesmo homeageado pela canção de Raul Seixas.

Acontece que a religião na Índia não parou nos Vedas. A confluência, sincretismo ou como se chame a mistura incrível de deuses e mitos que se vê no país ocorreu principalmente a partir do século 6 a.C. Entre 543 e 549 a.C., não se sabe ao certo, nasceu o príncipe indiano Sidarta Gautama, na região da cordilheira do Himalaia, no sul do atual Nepal. Viveu no palácio de seus pais, cercado de prazeres e protegido das dores do mundo. Até que, aos 29 anos, conduzido pelo cocheiro Chandaka, saiu pela primeira vez desse jardim paradisíaco para percorrer as ruas da cidade, e descobriu, espantado, a existência da velhice, da doença, da morte e da pobreza. Chocado com o que viu, saiu pelas estradas decidido a encontrar um meio de livrar o homem do sofrimento. O príncipe abriu mão de todas as suas riquezas, tornou-se um asceta, experimentou a iluminação e passou a divulgar os fundamentos do budismo, que, por princípio, condenava o sistema de castas vigente.

No mesmo período, Mahavira, outro líder religioso que, segundo a tradição, teria vivido entre 599 e 527 a.C, fundou o jainismo. A religião tem vários elementos comuns ao budismo e também propõe, entre outras coisas, a não-violência e um rígido regime asceta. Mas o budismo foi mais difundido globalmente. Acabou se espalhando pelo mundo, quando as tropas de Alexandre, o Grande, atingiram as fronteiras do subcontinente indiano, em 334 a.C. O monarca macedônio fundou diversas cidades na região e trouxe grande influência da cultura grega para a Índia. A miscelânea religiosa continuou. Outro propagador do budismo foi o imperador Ashoka, da dinastia Maurya. Ele governou
a Índia entre 273 e 232 a.C. e é frequentemente citado como um dos maiores imperadores da história do país. Conseguiu dar fim às disputas por territórios que provocavam grande matança na época e foi, ele próprio, um bem-sucedido conquistador. Seu império se estendia dos atuais Paquistão, Afeganistão e partes do Irã até Bengala e aos estados indianos de Assã, a leste, e de Mysore, ao sul. Mas esse guerreiro se converteu ao budismo e disseminou a religião por toda a Ásia Oriental.

Ironicamente, o budismo só não fixou raízes na própria Índia. Entre outras razões, devido a uma outra influência que viria séculos depois, resultado da invasão muçulmana. O avanço do islamismo foi outro golpe na sociedade de castas. Na verdade, as invasões ao território indiano sempre foram comuns e, na maioria das vezes, os estrangeiros acabavam absorvendo a cultura local. Com a chegada dos muçulmanos, no entanto, aconteceu o contrário. A primeira incursão muçulmana data do século 8, contra as cidades do Baluchistão, do Sind e do Panjabe, que se transformaram em estados islâmicos. No início do século 12, os turcomanos avançaram sobre o oeste e o norte da Índia. Fundaram o Sultanato de Délhi, que conseguiu proteger, por quatro séculos, a região dos ataques mongóis. Quando, finalmente, em 1600, a região foi anexada ao império mongol, que durou até meados do século 19, os mongóis, ao contrário do que se pensa, também absorveram a cultura local. Casaram com mulheres indianas e promoveram ampla integração cultural. Só tiveram de sair correndo porque, em 1857, os britânicos chegaram com tudo, sem dó nem piedade.

O sal da terra

De certa maneira, os primeiros passos da Inglaterra para a dominação sobre a Índia aconteceram graças ao chá. No início do século 17, em 1615, uma missão diplomática da Companhia Inglesa das Índias Orientais negociou um acordo que dava à empresa direitos exclusivos para estabelecer fábricas em várias cidades indianas. Em troca desse monopólio destinado ao comércio do chá, a Companhia traria ao país produtos do mercado europeu. Mas fez bem mais que isso. Abriu as brechas por onde a Índia iria deixar escapar sua autonomia política. Na altura dos anos 1850, os britânicos já controlavam quase todo o subcontinente indiano, inclusive o território correspondente aos atuais
Paquistão e Bangladesh.

A região sofreu com a dominação inglesa – e esse passado faz parte da memória recente do mundo. “Minha ambição é converter as pessoas britânicas à não-violência, e assim lhes fazer ver o mal que fizeram para a Índia. Eu não busco danificar as pessoas.” Ao explicar assim seu projeto político, tão simples quanto revolucionário, Mahatma Gandhi se referia às “Leis do Sal”. Elas proibiam os hindus, até o século passado, de produzirem seu próprio sal, fazendo com que tivessem de comprá-lo dos colonizadores britânicos. Na Marcha do Sal, como ficou conhecida a imensa manifestação de protesto contra esse interdito, Gandhi arrebanhou uma multidão que caminhou por 400 quilômetros, pacificamente, até a beira-mar. Era o dia 6 de abril de 1930. Depois do banho sagrado, Gandhi apanhou um punhado de sal perto do mar e o levantou nas mãos. Seu gesto foi repetido por milhares de indianos. E esse ato pacífico, mas cheio de significado, inspirou uma força brutal no movimento de libertação indiano. Seus seguidores eram o “Exército da Paz”. Anos depois, em 1947, sem derramar uma gota de sangue, a desobediência civil conclamada por Gandhi conquistou a independência da Índia.

Gandhi (1869-1948) tinha suas bases profundamente enraizadas na religiosidade ancestral indiana. O que explica, em parte, o tremendo impacto de suas ações. Em quase todo o país, é possível ver representações de sua imagem – magro, envolto em panos de algodão
branco, de sandálias. Nascido em casta alta, Gandhi estudou na Inglaterra e morou muitos anos no exterior, até que retornou à Índia
em 1915, convencido da igualdade entre os seres humanos. Isso significou, na prática, ir contra o sistema de castas e a dominação britânica. Seu propósito era unir a sociedade hindu e a muçulmana na luta pacífica pela independência, baseada no uso da não-violência (princípio da satyagraha, que já estava nos preceitos antigos do budismo e do jainismo). A tática para protestar pacificamente era disseminar a desobediência civil, ou seja, a disposição irredutível de não cumprir as leis britânicas. Simples assim, embora esses desobedientes determinados tenham, muitas vezes, apanhado e morrido por não ceder. Para que o derramamento de sangue acabasse, Gandhi fez intermináveis greves de fome.

Com a independência, vieram as dores da maturidade. O Paquistão se separou, e os dois países iniciaram uma disputa sangrenta pela região da Caxemira. O Partido do Congresso, a que pertencia Mahatma Gandhi, assumiu o governo da Índia, com o líder socialista Jawaharlal Nehru como primeiro-ministro. Ele foi sucedido no posto por sua filha Indira Gandhi e por seu neto Rajiv Gandhi. Gandhi, Indira e Rajiv morreram assassinados por extremistas, um cenário bem distante da não-violência que sempre defenderam. Em seus 60 anos de vida independente, a história da Índia incluiu três guerras com o Paquistão e um conflito armado com a China. Há também relatos de testes nucleares na Caxemira, a partir da década de 1970, o que gerou reações do Paquistão e sanções econômicas aos dois países por parte dos Estados Unidos.

A Índia é hoje a maior democracia do mundo e, no ano passado, elegeu Pratibha Patil, a primeira mulher presidente do país. Sofre, contudo, com as divisões internas, que foram acirradas, nos últimos tempos, por forças islâmicas extremistas, responsáveis por ataques registrados recentemente na região.

“Mesmo com todos esses conflitos, a Índia continua sendo um microscosmo da diversidade humana, sem perder sua unidade”, afirma o geneticista e pesquisador Ramsary Pitchappan, professor da Universidade de Madurai. Pode ser que as crianças indianas dos dias atuais cresçam numa superpotência emergente. Mas sabem, de ouvir contar de seus pais, que fazem parte de uma cultura milenar. E elas vão continuar contando a seus filhos e netos os segredos dessa epopeia que começou há 70 mil anos, e que está muito longe de desaparecer.

FONTE: AVENTURAS NA HISTÓRIA

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