O RESGATE DE NAPOLEÃO BONAPARTE E A CIDADE DO RECIFE

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O resgate de Napoleão
Animados pela Revolução Pernambucana de 1817, um grupo de emigrados franceses nos Estados Unidos elaborou um plano para resgatar o imperador em Santa Helena e trazê-lo para a América usando o Brasil como base de operações
por Vasco Mariz

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Napoleão em Santa Helena: o imperador francês terminou seus dias lentamente envenenado pelos ingleses
A fama e o fascínio por Napoleão estiveram bem presentes no Brasil nos primeiros 20 anos do século XIX. Em 1801 o futuro imperador francês poderia ter sido o patrono do primeiro movimento pernambucano para fundar uma república no país, a frustrada conspiração dos Suassunas. A influência de sua figura e das idéias liberais da Revolução Francesa e da independência dos Estados Unidos da América esteve muito presente entre os revolucionários pernambucanos do século XIX, desde a conspiração de 1801 até o triunfo da Revolução de 6 de março de 1817 no Recife, que proclamou a República no Nordeste. Tais ligações se tornariam ainda mais estreitas quando militares bonapartistas exilados nos Estados Unidos, animados com o sucesso da Revolução Pernambucana, elaboraram um plano para resgatar Napoleão de seu cativeiro em Santa Helena, levá-lo a Pernambuco e depois a Nova Orleans.

O elo entre os franceses e o Brasil era Antonio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, homem enviado pelos revolucionários nordestinos como seu representante junto ao governo dos Estados Unidos no intuito de obter o reconhecimento formal da independência de Pernambuco. Os bonapartistas estiveram em contato permanente com Cabugá, que era um entusiasta do plano dos exilados franceses.

A queda do império napoleônico, em 1815, significou para a quase totalidade dos oficiais dos exércitos franceses uma verdadeira catástrofe. Com o imperador nas mãos dos ingleses, os generais e coronéis que haviam combatido em Iena, Marengo, Leipzig, na Rússia e em Waterloo encontravam-se em situação muito difícil, pois ou prestavam juramento de fidelidade a Luís XVIII, ou se contentavam em receber meio soldo apenas. Por isso, numerosos oficiais preferiram o exílio nos Estados Unidos, onde havia oportunidades para “soldados de fortuna”. Assim, poucos meses depois da queda do império, já estavam nos EUA cerca de mil oficiais franceses de várias patentes, cujo único pensamento era libertar o imperador que definhava no clima severo da ilha de Santa Helena, em pleno oceano Atlântico, na altura de Pernambuco.

O chefe da conspiração francesa nos EUA era o irmão do imperador, José Bonaparte, que fora rei da Espanha. Por meio do contato com Cabugá viram no Brasil uma possibilidade de colocar em prática seus planos, e numerosos militares franceses começaram a se deslocar para Pernambuco a fim de preparar a cabeça-de-ponte da operação. Durante os três meses de vida da República de Pernambuco, Cabugá adquiriu armamentos e munições e os enviou ao Brasil. Mesmo após a derrota da revolução, ele continuou ajudando os franceses exilados que planejavam o rapto de Napoleão e conseguiu articular a vinda para o Brasil de dois navios corsários, o Parangon e o Penguin.

A Batalha de Waterloo marcou a derrota final de Napoleão Cuirassiers atacando os Highlanders durante a Batalha de Waterloo em 18 de junho de 1815, Felix Philippoteaux, óleo sobre tela, 1874
Outro fator que contribuiu para os planos dos franceses foi a decisão do Departamento de Estado americano de designar um representante permanente em Recife, o cônsul Joseph Ray, que desempenharia papel significativo no decorrer da Revolução de 1817, abrigando em sua casa cidadãos franceses que chegavam para incorporar-se à expedição que iria seqüestrar Napoleão.

A oportunidade era esplêndida para os emigrados franceses nos EUA, que se aproveitaram dos bons ofícios de Cabugá em Washington e da estratégica posição de Ray em Recife. Correspondência citada por Donatello Grieco em seu excelente livro Napoleão e o Brasil informa que os oficiais franceses convergiram para o porto de Baltimore e um grupo avançado de 32 homens chefiado pelo coronel Latapie viajou para Pernambuco. Foram adquiridas duas escunas que estavam em Baltimore e Anápolis. O ponto de reunião de toda a expedição era a ilha de Fernando de Noronha, onde Portugal mantinha uma prisão especial. Lá deveriam reunir-se 80 oficiais franceses, cerca de 700 americanos e outro navio com 800 marinheiros. Essas forças deveriam atacar Santa Helena visando a capital Jamestown, mas isso seria apenas uma manobra para atrair os defensores ingleses, deixando livres a Sandy Bay e a Prosperous Bay, onde desembarcaria a maioria das tropas da expedição. Um grupo se dirigiria à residência de Napoleão e o levaria para a Prosperous Bay. Seguiriam para Recife e viajariam depois para Nova Orleans.

A bordo do navio Parangon chegaram ao Rio Grande do Norte em agosto de 1817 alguns dos principais personagens da expedição francesa. O mais importante deles era o conde de Pontécoulant, pitoresco personagem de vida aventureira, apesar de sua alta linhagem gaulesa. Ao desembarcar teve a má notícia de que a Revolução de 1817 fora afogada, mas o fato não era tão grave assim porque Joseph Ray, o cônsul americano em Recife, continuaria a dar-lhes plena cobertura. Em Natal não encontrou maiores dificuldades, pois conseguiu fazer boas relações de amizade com o secretário do governador. Decidiu passar-se por médico e botânico e partiu para a Paraíba, onde o Parangon havia desembarcado o general Raulet, o coronel Latapie e outros personagens franceses de patente mais baixa.

Na Paraíba, o conde não teria a mesma boa recepção, pois o governador local mandou prender todos os franceses encontrados, enviando-os depois para Pernambuco. Em Recife tiveram melhor sorte, pois o governador Luiz do Rego não encontrou em seus papéis nada de suspeito e os liberou. Foram hospedar-se na casa do cônsul Ray, que se tornaria o centro de todas as medidas para o êxito da expedição francesa a Santa Helena. Nesse momento aportou em Recife outra escuna americana carregada de armamentos, o que alarmou o governador pernambucano, que não sabia como controlar o cônsul Joseph Ray.

Nos traços de Antonio Parreiras, imagem da breve República de Pernambuco. Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, óleo sobre tela, início do século XIX
Sucedeu então o imprevisto: o coronel Latapie solicitou audiência ao governador Luiz do Rego e resolveu relatar-lhe tudo sobre a expedição que estava sendo preparada. Contou-lhe o papel do ex-rei da Espanha, José Bonaparte, irmão de Napoleão, que deveria chegar a Pernambuco nos próximos dias e todas as implicações de uma delicada questão internacional. O governador afinal deu-se conta da importância dos fatos e decidiu encaminhar os franceses às autoridades portuguesas da capital.

No Rio de Janeiro ocorreu outra surpresa: um cidadão americano declarou ao presidente da Alçada que o cônsul Ray estava em contato direto com Cabugá e os líderes da expedição francesa. O cônsul acusava o governador de Pernambuco de prejudicar os interesses comerciais dos EUA. Afirmava Ray abertamente que seria muito fácil obter a independência do Brasil, porque o governo português do Rio de Janeiro ficaria reduzido à impotência pela intervenção armada dos Estados Unidos e a neutralidade da Inglaterra. O interrogatório de tripulantes do navio americano confirmou essas declarações alarmantes do diplomata.

Segundo o relato de Ferreira da Costa em seu A intervenção napoleônica no Brasil, o conde de Pontécoulant, assustado, preferiu regressar ao Rio Grande do Norte para obter proteção de seu amigo, o secretário do governador, mas nova complicação ocorreu com o aparecimento de outro navio americano, o Penguin. Procedente de Nova York, a embarcação trazia mais armamentos enviados por Cabugá, e seus tripulantes transmitiram notícias alarmantes, assegurando até que Napoleão já se evadira de Santa Helena. Em Recife, no início de 1818, o governador Luiz do Rego, convencido da cumplicidade do cônsul americano, pediu ao Rio de Janeiro autorização para efetuar uma busca na casa dele e lá encontrou três pernambucanos implicados na Revolução de 1817, além de alguns franceses, prova cabal de sua conivência.

A imunidade consular salvou Ray, mas seu secretário dinamarquês foi preso e relatou todos os pormenores da associação dos franceses com os revolucionários de 1817, do que resultou a prisão do general Raulet. Nesse ínterim, chegavam ao Ceará mais franceses ilustres a bordo da fragata Les Trois Frères. Os bonapartistas contavam que na França se falava com entusiasmo do sucesso da Revolução Pernambucana e vários franceses decidiram embarcar para o Brasil a fim de juntar-se à expedição destinada a Santa Helena.
As autoridades portuguesas começaram a preocupar-se seriamente com a chegada de dezenas de franceses de alta estirpe que não podiam trancafiar impunemente sem protesto do governo francês, com o qual Portugal mantinha agora excelentes relações. Por outro lado, o governo português não podia deixar de reagir ao imbróglio que aumentava com os protestos do governo inglês, seu aliado, interessado em manter Napoleão em segurança na sua ilha. Os juristas estavam confusos e afinal a corte portuguesa ordenou à polícia carioca “transportar para a Europa todos os emigrados franceses que se encontravam no Brasil”.

Em Santa Helena o comandante inglês sir Hudson Lowe estava ao corrente de tudo o que acontecia no Brasil pelo ministro inglês no Rio de Janeiro e tomou diversas medidas para reforçar a defesa da ilha. Instalou telégrafos e novas baterias em Sandy Bay, em Prosperous Bay e na capital Jamestown, os três pontos mais vulneráveis.

Os planos dos bonapartistas nunca se concretizaram, mas os franceses dificilmente teriam tido sorte em sua iniciativa de raptar o imperador da ilha solitária. Não seria nada fácil, pois os ingleses sabiam dos planos dos franceses e tomaram precauções eficazes para resistir. Se ele tivesse aportado em Recife a caminho de Nova Orleans, durante a Revolução de 1817, certamente seus próceres tentariam retê-lo por algum tempo para homenageá-lo, mas isso dificilmente se realizaria.

É claro que se d. João VI tivesse conhecimento de que Napoleão estava em Recife, mandaria apresá-lo imediatamente para vingar-se de sua ignominiosa fuga de Lisboa em 1808, escapando às tropas do general Junot. Que magnifico refém seria Napoleão para d. João VI! Na época o monarca estava negociando com Luis XVIII a devolução da Guiana francesa, ocupada em 1809 por tropas da Amazônia. Por isso é natural que, se os exilados Franceses tivessem obtido sucesso no seqüestro de Napoleão, eles o teriam levado diretamente para os EUA, sem escala em Recife, que serviria apenas de cabeça-de-ponte inicial para a planejada operação de resgate.

SAIBA MAIS
Napoleão e o Brasil. Donatello Grieco. Bibliex, 1995.

História da Revolução de Pernambuco em 1817. Francisco Muniz Tavares. Imprensa Industrial, 1917.
Vasco Mariz É historiador e diplomata aposentado. Ex-embaixador do Brasil no Equador, Israel, Chipre, Peru e Alemanha, é autor de Villegagnon e a França Antártica (Nova Fronteira, 2000), entre outros livros
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4 responses

31 05 2010
Leonardo Dantas Silva

A fracassada fuga de
Napoleão para o Brasil

Leonardo Dantas Silva

Napoleão Bonaparte (1769-1821), general e estadista, imperador dos franceses, por pouco não se tornou um dos destaques da História do Brasil, com repercussões na América Espanhola e nos Estados Unidos, caso tivesse sucesso o seu plano de fuga projetado em 1817 da ilha de Santa Helena, onde se encontrava prisioneiro dos ingleses, para Pernambuco por ocasião da proclamação da revolução republicana.

Na época, era propósito dos franceses, uma vez libertado imperador, conduzi-lo aos Estados Unidos, mas caso tivesse sido vitoriosa a República de Pernambuco, proclamada em 6 de março de 1817, e Napoleão viesse a desembarcar no Recife, que imagens poderíamos captar para uma história de ficção, com a figura carismática do Corso levando a chama republicana às plagas da América do Sul.

Em 1817 transpirava-se em Pernambuco um notório descontentamento com a sua situação de uma capitania tão rica reduzida a condição de colônia de Portugal, fazendo ressurgir sentimentos separatistas acalentados desde a expulsão do governo holandês em 1654.
Jovens bacharéis egressos de Coimbra e de outras universidades européias, padres e seminaristas do Seminário de Olinda, discutiam ardorosamente nos cenáculos das cinco lojas maçônicas e nos púlpitos das igrejas, o ideário liberal proclamado pela Declaração Francesa dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) e pelos princípios da Declaração de Independência dos Estados Unidos da América (1776).
Em 6 de março de 1817 um movimento armado contra o governo português toma conta das ruas do Recife, com o apoio do clero, das classes militares e do comércio, visando transformar Pernambuco e as demais províncias, que hoje integram o nordeste brasileiro, numa República independente de Portugal. Para isso fora enviado preso para o Rio de Janeiro o governador português, Caetano Pinto de Miranda Montenegro; promulgado um projeto de Constituição – que tinha por princípios básicos a interdependência dos três poderes, as liberdades de crença e opinião e as garantias individuais –; criada uma nova bandeira e outros símbolos da pátria; constituindo um conselho de notáveis e eleito os representantes das classes governantes.
Para a manutenção da nova república, movimentou-se a maçonaria em conseguir apoio e recursos junto às suas lojas de Londres e, em particular, dos Estados Unidos. Para esta república foi enviado como embaixador o comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, conhecido pelo apelido de Cabugá. Levando em sua bagagem o desenho aquarelado da Bandeira Republicana, o texto do projeto de constituição, a Lei Orgânica, e “uma carta para o irmão presidente”, Cabugá inicia sua delicada missão nos Estados Unidos da América. Muito embora não conseguindo o prometido encontro com o presidente Madison, vem a ser recebido em audiência particular pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, para o qual relatou os propósitos e necessidades da mais nova república sul-americana.
Não foi feliz o Cabugá nos seus primeiros contatos, mas, não se sabendo porquê razões, talvez até pelo seu relacionamento com a maçonaria internacional, ele vem despertar simpatias entre os emigrados franceses, simpatizantes da causa bonapartista. Conseguiu assim contratar embarcações e marinheiros, para o transporte de armas e munições para a nova república, bem como o apoio de José Bonaparte, que viu nos novos acontecimentos a possibilidade de por em execução o plano de fuga de seu irmão, Napoleão Bonaparte, então prisioneiro dos ingleses em Longwood, capital de Santa Helena, uma ilha do Atlântico Sul, situada a 1.850 km da costa ocidental da África.
Para Alfredo de Carvalho, que disserta sobre o episódio em seu livro, Aventuras e Aventureiros no Brasil (Rio de Janeiro: Pongetti & Cia., 1929), firmara-se assim entre o embaixador da nova República de Pernambuco, Antônio Gonçalves da Cruz, e os emigrados franceses “uma espécie de contrato de auxílios mútuos: os bonapartistas deveriam ajudar os revolucionários na luta pela independência e, conseguida esta, os republicanos prestariam seu apoio à tentativa de evasão de Napoleão da prisão onde se encontrava, na ilha de Santa Helena”.
Para isso contavam os bonapartistas com as simpatias de dez mil “emigrados franceses sempre prontos a sacrificarem-se pelo seu imperador”. Para as despesas com a formação de uma frota de guerra, devidamente armada e bem municiada, bem como a contratação de soldados e marinheiros necessários, dispunham eles de quantia superior a 1 milhão de dólares.

NAPOLEÃO EM PERNAMBUCO

Com a conciliação de propósitos, inicia-se assim a execução do plano de fuga de Napoleão Bonaparte, tendo como base de operações a nova República de Pernambuco.
Primeiramente, atendendo pedido de Cabugá, o governo dos Estados Unidos nomeia como cônsul daquela república no Recife o diplomata M. Joseph Ray, notório simpatizante da causa dos bonapartistas, que deveria dar acolhida a todos os envolvidos que viessem aportar nas costas de Pernambuco.
Sem qualquer notícia recente dos acontecimentos envolvendo os simpatizantes da República Pernambucana, bem como da reação tirânica da coroa portuguesa contra os insurretos, partiu da Filadélfia o navio americano Parangon em direção às costas do Rio Grande do Norte, que veio aportar em baía Formosa, a 50 quilômetros de Natal, em 29 de agosto de 1817, transportando um carregamento de breu. Depois de despachar sua carga e se abastecer de víveres, o barco seguiu viagem com destino à Paraíba, não sem antes deixar em terra quatro franceses.
O pequeno grupo era chefiado pelo coronel Paul-Albert-Marie de Latapie, militante da infantaria dos exércitos napoleônicos, que gravemente ferido na batalha de Waterloo (1815), ocorrida a 15 km. de Bruxelas, fora buscar refúgio nos Estados Unidos. O experiente militar se fazia acompanhar dos também oficiais bonapartistas Artong e Roulet, apresentando-se como quarto personagem, um jovem cientista, Louis Adolpho Le Doulcet (1794-1882), que vem alcançar destaque nos estudos da Botânica e na produção musical. Seu nome é registrado pela Enciclopédia Larousse (que trata de sua aventura no Brasil), sendo ele filho do Conde de Pontécoulant (1769-1840), senador do Império francês ao tempo de Napoleão I.
Este último, que também era dado ao exercício da medicina, logo fez amizade com José Ignácio Borges, secretário do governador do Rio Grande do Norte, que facilitou para todo grupo os passaportes necessários para viagens por todo território brasileiro.
De posse dos papéis os aventureiros rumaram para o Recife, onde os aguardava o cônsul dos Estados Unidos M. Joseph Hay, que lhe fora indicado por Cabugá. O cônsul tinha como secretário o dinamarquês Georges Fleming Holdt, que havia servido na marinha de Napoleão, e que mais tarde vem a ser preso pelo governo, ocasião em que confessa a existência do plano de fuga do imperador da Ilha de Santa Helena.
Só ao chegar ao Brasil é que os franceses se dão conta do fracasso da Revolução Republicana de Pernambuco, cujos principais líderes se encontravam presos no Recife e Salvador, já tendo alguns deles dado suas vidas à causa da liberdade.
No Recife foram os franceses Latapie, Artong, Roulet e Louis Le Doulcet recolhidos ao forte do Brum, por ordem do capitão-general Luiz do Rego Barreto, responsável pela repressão da coroa portuguesa ao movimento republicano de seis de março de 1817.
Por interveniência do cônsul M. Joseph Hay foram eles libertados, não sem antes confessar que “estavam na Filadélfia quando tomaram conhecimento das notícias da revolução de Pernambuco”. Tal acontecimento fez com que José Bonaparte desse continuidade a um ardiloso plano visando resgatar o seu irmão, Napoleão, de sua prisão na ilha de Santa Helena.
Louis Adolfo regressa ao Rio Grande do Norte, enquanto os três outros ficaram no Recife, na casa do cônsul dos Estados Unidos. Logo depois Latapie e Artong seguem viagem para o Rio de Janeiro na tentativa de avistar-se com outros bonapartistas, inclusive com o general Theodoro van Hogendorp (1761-1822), militar holandês que depois de galgar os mais altos cargos no exército de Napoleão vivia anonimamente numa chácara, na Estrada da Tijuca, aonde por vezes recebera a visita do príncipe D. Pedro.
Nesse ínterim chega às costas da Paraíba, na baía da Traição, um barco com oito marinheiros do navio Pingüim, que presos e levados ao Recife, vieram confessar estar a serviço de Cabugá que fretara aquele navio nos Estados Unidos e o mandara para Pernambuco, carregado de armas e munições para uso dos revoltosos. Diante dos fatos, o Pingüim seguiu viagem rumo à Bahia, deixando-os na praia; o fato vem a ser comunicado pelo governador da Paraíba, Bernardo Teixeira, ao ministro Villa Nova Portugal, em data de 1º de março de 1818.
No Recife foi de pronto requerida à prisão de Roulet e de três outros franceses que se encontravam na casa do cônsul. Feita a busca no local foram presos o secretário do consulado Georges Fleming Holdt, Roulet e três outros suspeitos, além do livro de correspondência oficial. Na prisão o dinamarquês Holdt veio confessar mais detalhes do plano traçado para a fuga de Napoleão, que lhe fora descrito em minúcias pelo coronel Latapie, quando de jantar na casa do cônsul norte-americano.
Do plano ali narrado já tinha conhecimento o próprio Napoleão, que autenticara com a sua assinatura às cartas geográficas enviadas sob sigilo de Santa Helena para José Bonaparte, nos Estados Unidos, confirmando a existência da quantia de mais de 1 milhão de dólares para fazer face às despesas com a pequena frota.
Depois de alguns meses na prisão, onde eram visitados constantemente pelo cônsul americano, afirmando Alfredo de Carvalho que “a sua enérgica conduta pesou nas determinações do governo de Pernambuco e do Rio e precipitou o desfecho do processo”.

Para o diplomata M. Joseph Hay, as autoridades portuguesas estavam cientes que “nem Roulet, nem Latapie, nem Louis Adolfo, nem Artong, tinham vindo ao Brasil com intuito de fazer agitação e de pregação em favor da proclamação de uma república”, mas tão somente sondar o ambiente a fim de estudar a possibilidade de por em prática o plano de fuga de seu imperador, então prisioneiro dos ingleses na ilha de Santa Helena.
Acatando tal argumentação o Tribunal de Alçada de Pernambuco, julgando-se incompetente em razão dos fatos, enviou os franceses para o Rio de Janeiro de onde foram, no mais curto espaço de tempo, embarcados para Portugal, que logo os expulsou do seu território através da fronteira com Espanha.
O plano de fuga de Napoleão, orquestrado por José Bonaparte, porém, só muito depois vem a ser conhecido com detalhes, quando em 1853 vem a ser publicada, em Londres, a correspondência diplomática, trocada Charles Bagot, de Washington, com o Lord Castlereagh. Segundo Alfredo de Carvalho, que faz referência à documentação no seu livro Aventuras e Aventureiros no Brasil (1929), publicado no Rio de Janeiro pela Ed. Pongetti, em relatório datado de 29 de julho de 1817, ficara escolhido como ponto de encontro da expedição “a ilha de Fernando de Noronha, situada a 62 léguas da costa do Brasil”, para onde iriam os barcos de guerra especialmente fretados para aquela operação, destacando o documento: “Ali devem reunir-se oficiais franceses de Bonaparte, em número de aproximadamente oitenta, setecentos oficiais americanos, duas escunas e um navio armado pelo Lord Cochrane, tendo a bordo oitocentos marinheiros e duzentos oficiais”.
Terminava assim o malogrado plano daqueles aventureiros de resgatar Napoleão Bonaparte de sua prisão na pequenina ilha rochosa de Santa Helena e transformá-lo no grande comandante dos exércitos republicanos da América do Sul.
Findaram-se assim, sem maiores conseqüências, os sonhos daqueles bonapartistas que, como os nossos patriotas, também acreditaram no arrebol da República de Pernambuco de 1817.

A República de 1817

Ainda está por se escrever sobre as repercussões em outros continentes da Revolução Republicana em 1817 em Pernambuco, particularmente na Europa e nos Estados Unidos. Muito embora o diplomata Gonçalo Mello Mourão já tenha estudado às implicações do movimento em vários países, quando da publicação do seu livro, A Revolução de 1817 e a História do Brasil (Ed. Itatiaia, 1996) , fatos menores, porém, estão a despertar a curiosidade dos que se interessam pela importância de nossa primeira república.
A chamada República de Pernambuco, pela segunda vez Restaurado, alusão ao episódio da primeira Restauração Pernambucana (1654), teve curta duração, pouco mais de 45 dias, mas os seus efeitos repercutiram em várias partes do mundo. Ao contrário da ótica da maioria dos estudiosos do período, o movimento republicano de 6 de março de 1817 “criou o Brasil a nível internacional como entidade independente e com ela começa a História Diplomática do Brasil. […] É com a Revolução de 1817 e sua repercussão, nacional e internacional, que o Brasil e sua história diplomática própria nascem, entendidos aí tanto os fatos que ele próprio criou com a configuração de sua imagem externa” (Mourão, p. 48/1996).
Apesar de acontecer numa época de difíceis meios de comunicação, a Revolução Republicana de 1817, em Pernambuco, alcançou repercussão invulgar na correspondência diplomática da época, hoje conservada em arquivos de Lisboa, Londres, Paris, Madri, Viena, São Petersburgo e Washington. Os acontecimentos do Recife ganharam às páginas dos jornais londrinos de língua portuguesa – Português, Investigador Português e Correio Brasiliense –, tendo o Time (Londres) dedicado-lhe o editorial de sua edição de 27 de maio de 1817, cujo noticiário transcrevia a correspondência trazida pelo navio Tigris, abrindo a sua edição com a manchete de primeira página: General Insurretion in the Brasilis (Insurreição Geral no Brasil).
De 27 de maio a 16 de junho daquele ano, o Time mantém os seus leitores informados acerca da República de Pernambuco, estendendo-se o noticiário até 1º de agosto, quando narra os acontecimentos de sua derrocada. Nesse período nada menos de 21 editoriais foram dedicados à Revolução de 1817, sendo o seu noticiário transcrito em 58 edições daquele jornal londrino.
Nos Estados Unidos, a chegada do enviado dos revolucionários pernambucanos, Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, aparece na imprensa de Boston, tendo sua fracassada missão se estendido por dois meses.

12 12 2010
EDSON ARAUJO

Uma história tão rica como esta põe em xeque a supremacia da inconfidencia mineira como movimento de libertação.
Deveríamos tanto aqui no sudeste como em outras regioes do pais apreciar mais
a História e a cultura do NE.
edsonp681@gmail.com

3 03 2012
Maria Eduarda >< ♥

gente eu gostaria mto de saber pq a revolucao pernambucana foi importante ?
me ajudem é do meu trabalho da escola resposta pelo msn até amanha

23 08 2012
gildasiosantos

cujo o unico pensemento era liberta o inperador que definhava no clima severo da ilha de santa helena em pleno oceano atlantico na altura de-
pernambuco

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