SOLDADOS ESQUECIDOS

Soldados esquecidos
Recrutados pelo exército, indígenas ajudaram o Brasil a ganhar a Guerra do Paraguai, mas nunca foram justamente recompensados pela bravura que exibiram nos campos de batalha
Rosely Batista Miranda de Almeida

Não foram só as forças armadas do Império que deram ao Brasil a vitória no maior conflito bélico jamais ocorrido na América do Sul. Pesquisas já mostraram que gente do povo, mulheres, escravos e ex-escravos também tiveram atuação marcante na Guerra do Paraguai (1864-1870). De todas essas minorias combatentes, a participação dos índios era menos conhecida. Hoje se sabe que eles atuaram no conflito como verdadeiros soldados, e foram considerados “bravos auxiliares” por oficiais do nosso exército. Existem muitos relatos sobre gestos heróicos de soldados indígenas que fazem jus aos elogios, como, por exemplo, o de grupos avançando de peito nu, numa demonstração de extrema coragem, para desalojar soldados paraguaios escondidos nas matas que eles tão bem conheciam. Ou de pelotões indígenas realizando com êxito a missão de observar os movimentos do inimigo ou de trazerem de volta aos seus destacamentos soldados desertores e escravos fugidos.

Nessas ações, não eram movidos propriamente por patriotismo ou sentimento semelhante, mas sobretudo pelos interesses dos grupos a que pertenciam. Os índios que habitavam as terras da Província de Mato Grosso, ao se tornarem soldados, queriam, antes de mais nada, ver pelas costas, fora de seu território e longe de sua vista, o soldado inimigo, que traria para o seu povo morte e destruição. Ao defenderem o exército imperial, acreditavam estar defendendo também sua gente e resguardando seu espaço. Por isso os paraguaios eram considerados inimigos comuns, deles e da nação branca. Tornaram-se soldados do Império brasileiro, em maior número, os Mbayá-Guaicuru (Kadiwéu), os Txané-Guaná (Terena, Kinikinau, Layana e Guaná), os Xamakoko, os Guató, os Kayapó e os Bororo da Campanha (assim denominados, supostamente, por habitarem os campos abertos da região pantaneira). Os territórios de todos esses grupos e nações indígenas se localizavam na parte meridional da antiga Província de Mato Grosso, hoje Mato Grosso do Sul.

Muito tempo antes da guerra, a Coroa portuguesa já tinha consciência da importância desses grupos indígenas para a defesa do território da colônia no vale do Paraguai, estimulando e atraindo nativos para povoarem aquela área de fronteira. Os Txané-Guaná (grupo Aruak) e os Mbayá-Guaicuru, vindos da região do Chaco, habitavam a bacia pantaneira (Baixo rio Paraguai) desde meados de século XVII, e foram os que tiveram maior participação no conflito. Sempre estiveram ao lado dos brasileiros. Estes e outros grupos nativos mantinham contatos regulares, desde a segunda metade do século XVIII, com os habitantes da parte sul da Província. Estiveram presentes durante a construção das primeiras unidades militares da região, a exemplo do forte de Coimbra, construído pelos portugueses em 1775 para garantir a posse das áreas conquistadas pelo avanço bandeirante. Estavam também acostumados a auxiliar militares e civis como intérpretes, remadores ou no transporte de cargas. Eram comumente recrutados em aldeamentos próximos aos novos núcleos de povoamento, como, por exemplo, o de Albuquerque.

Tais vínculos se estreitaram ainda mais na segunda metade do século XIX, a partir da fundação das missões religiosas pelo governo imperial. Em 1846, foi criada a Diretoria Geral dos Índios, na Província de Mato Grosso, como conseqüência do Decreto de 24 de julho de 1845, que oficializava o Regulamento das Missões e reprovava a política de guerra contra os índios. Conforme a determinação do governo imperial, as missões, também chamadas de “aldeias regulares”, eram estabelecimentos oficiais presentes em cada província brasileira. Cada núcleo era administrado por um diretor, religioso ou não, que estava subordinado ao diretor-geral da província. Na prática, não mudava muito a política que prevalecia desde os tempos coloniais. Esperava-se que os índios, uma vez aldeados, se tornassem dóceis e submissos aos costumes “civilizadores” do homem branco e a uma cultura que não era a deles. Era também uma porta aberta à exploração da mão-de-obra indígena por parte de autoridades e fazendeiros.

Manuscritos guardados no Arquivo Público do Estado de Mato Grosso afirmam que a aproximação de índios com não-índios se dava também através do comércio. Era o caso dos Guaná, que pelo menos duas décadas antes da guerra negociavam redes, panos, cintos e suspensórios, principalmente por permutas, tanto com brasileiros como com os vizinhos paraguaios, no forte Olimpo. Atuavam também como informantes, já que depois relatavam aos brasileiros o que se passava no outro lado da fronteira. Esse tipo de atividade foi também observada por Alfredo d’Escragnolle Taunay (1843-1899), militar incorporado à expedição de Mato Grosso no grupo dos engenheiros e em seguida autor do romance A Retirada da Laguna. Em 1825, antes da guerra, o presidente do Paraguai, José Gaspar Rodrigues de Francia (1776-1840) queixava-se dos índios Guaicuru, que invadiam o território de seu país para pilhagens e saques. Afirmava Francia serem os índios influenciados pelos moradores de Cuiabá, de Miranda e do forte de Coimbra. E, segundo Augusto Leverger (1802-1880), futuro presidente da Província de Mato Grosso, talvez fosse este o mais antigo motivo da indisposição dos vizinhos castelhanos contra o Império do Brasil.

A preocupação central dos governantes da Província era proteger as fronteiras de Mato Grosso. Para tanto, procuravam manter os índios próximos a elas. Sem dúvida nenhuma, esta estratégia ajudou muito o Brasil a vencer a guerra. Os índios eram exímios conhecedores da região do conflito. Por isso, eram requisitados pelos militares como guias. A partir de 1860, os Guaicuru passaram a ser enviados com freqüência para missões de reconhecimento na parte meridional da Província de Mato Grosso. Eram missões particularmente perigosas, pois eram eles que tinham de constatar ou não, de muito perto, a presença de paraguaios. Visando a guarda das fronteiras da parte meridional da província mato-grossense, o governo imperial contava com a vigilância dos Guaicuru Cavaleiros, assim denominados por serem conhecidos, desde o período colonial, como especialista na arte de montar. A narrativa sobre essa habilidade especial dos Guaicuru pode ser encontrada na obra A Retirada da Laguna.

Nela, Taunay descreve um dos momentos mais dramáticos do conflito, ocorrido em 1867. As tropas sofriam com a falta de víveres e outras dificuldades, como o desconhecimento daquela região pantanosa, as conseqüências dos incêndios provocados pelos paraguaios e a escassez de água, apesar das copiosas chuvas. Foi um período de elevada mortandade, provocada pelo inimigo e por um surto de cólera, que fez inúmeras baixas. Soldados indígenas também enfrentaram com bravura aquela situação extrema. Relata Taunay que o major José Tomás Gonçalves, comandante do 21º Batalhão de Infantaria, seguiu uma vez a cavalo, em companhia do Corpo de Caçadores e mais trinta índios, para surpreender paraguaios que se encontravam a mais de uma légua. Percebendo a disposição da coluna brasileira, os inimigos, embora com maior número de combatentes, resolveram debandar, deixando para trás arreios, cavalos e lanças. O major Gonçalves destacaria depois a atuação aguerrida dos soldados índios nesse episódio.

Por conhecerem bem os territórios da Província, diferentes grupos indígenas prestavam serviços também na abertura de trilhas e outros tipos de trabalho, como o fornecimento de lenha para os vapores que transportavam pessoas e cargas ou o sepultamento dos mortos em combate. Os Kinikinau, os Xamakoko, os Kayapó, os Terena e os Layana foram mencionados, em manuscritos relacionados ao período da guerra, como os que socorriam as forças militares com mantimentos. Os Guaicuru, os Terena, os Kinikinau e os Guaná ocuparam as frentes de batalha no episódio da Retirada da Laguna e depois em solo paraguaio.

A inimizade dos Guaicuru com os paraguaios se registra desde o período da colonização, quando expedições punitivas eram freqüentemente enviadas contra eles pelos espanhóis, inclusive com participação de grupos indígenas rivais, como os Guarani. Tais incursões estimularam e enraizaram a inimizade dos Guaicuru pelos paraguaios, mais do que com os portugueses. Quanto aos Guató, os manuscritos pesquisados não esclarecem o porquê de terem lutado inicialmente em favor dos paraguaios. Supõe-se que isso se deu pelo fato de habitarem as terras do Alto rio Paraguai, onde teriam sido aliciados pelo inimigo. Mas eles acabaram se desligando das forças paraguaias – segundo afirmaram, pelas crueldades que puderam presenciar. Tornaram-se então espiões a serviço dos brasileiros, aos quais davam conta dos movimentos do inimigo nas terras próximas ao rio São Lourenço, na Província de Mato Grosso. Os Bororo da Campanha, que viviam próximos ao Escalvado (nas imediações de Cáceres, antiga Vila Maria), prendiam e traziam de volta aos destacamentos os desertores e escravos que fugiam para a Bolívia.

Entre os índios havia voluntários, mas grande parte deles era levada à força para o campo de batalha. O que se consideraria hoje uma grave infração aos direitos individuais, era comum na época. Em geral, o recrutamento compulsório incidia sobre indígenas, negros, forros ou escravos, e homens desocupados em condições de lutar – todos representantes das camadas “inferiores” da população. A prática do recrutamento forçado não era tranqüila. Existe o registro da atitude de um velho índio Guaná chamado Braz, que teve dois filhos menores, Ricardo e José, recrutados contra a sua vontade. Ele se apresentou ao general Alexandre Manoel Albino de Carvalho, presidente da Província de Mato Grosso, em julho de l865, para exprimir suas queixas. Segundo alegou o ancião, eram Ricardo e José que o ajudavam a manter-se na velhice, e além disso um outro filho já participava da guerra, como soldado no Exército imperial. O documento não indica o resultado de suas reclamações.

Os índios voltavam dos ataques aos paraguaios carregando consigo fuzis, munições, tecidos, terçados (sabres), uniformes velhos e diplomas recebidos de oficiais brasileiros, como prova de sua presença nas fileiras da guerra. Alguns, como os Guaná, receberam até gratificação em dinheiro. Eles costumavam guardar por muito tempo os modestos prêmios que recebiam, orgulhosos de seu atos de bravuras. Em 1865, os Kadiwéu chegaram até São Salvador, pelo rio Apa, carregando armas a eles oferecidas por brasileiros, além de muitos outros objetos e mercadorias obtidos com saques e pilhagens contra instalações militares e comboios de abastecimento uruguaios. Em 1879, quase quinze anos depois, ainda eram vistos usando os velhos sabres presos à cintura.

Os cadiuéus (grupo remanescente dos Guaicuru) sustentam ainda hoje que receberam, da parte do próprio imperador D. Pedro II, a promessa formal de terem suas terras demarcadas tão logo terminasse a guerra. Eles temiam, desde o começo do conflito, que seu território pudesse ser invadido pelo inimigo e vir a tornar-se propriedade dos castelhanos paraguaios. Autores como Sílvia Carvalho, atestam que, por documento oficial, datado do século XIX, eles têm, realmente, esse direito. Contudo, o acordo nunca foi respeitado. Terminada a guerra, tornou-se comum a apropriação das terras indígenas, por fazendeiros ou militares, na região sul da Província. Tal situação tem inspirado, desde então, inúmeros conflitos entre índios e não-índios em áreas do atual Mato Grosso do Sul. Embora a vitória sobre o Paraguai se deva muito à força dos índios, estes voltaram da guerra, enfim, sobraçando apenas ninharias, ofertadas como esmolas, sem direito a honrarias ou recompensas de verdade pela bravura que exibiram nos campos de batalha.

Rosely Batista Miranda de Almeida é professora na Escola Estadual Professora Maria Hermínia Alves, em Cuiabá (MT), e autora da dissertação de mestrado “A presença indígena na Guerra com o Paraguai” (UFMT, 2007)

Saiba mais – Bibliografia:

CARNEIRO DA CUNHA, Manuela (org.) História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: Secretaria Municipal de Cultura: FAPESP, 1992.

COSTA, Maria de Fátima. A história de um país inexistente: Pantanal entre os séculos XVI e XVIII. São Paulo: Kosmos, 1999.

DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita Guerra: Nova História da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

VASCONCELOS, Cláudio Alves de. A questão indígena na Província de Mato Grosso: Conflito, trama e continuidade: Editora UFMS, 1999.

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