O QUE SIGNIFICA SER POBRE?



Desigualdades

O Brasil gasta muito pouco com os programas de redução da pobreza, que funcionam bem e precisam de expansão

Em 1640 o Theatrum Botanicum apresentou uma lista ampla do herbário medicinal conhecido no norte da Europa, separou as ervas medicinais em tribos e incluiu nelas alguns fungos que eram usados como antibiótico. Novidade? Não. Trabalho impressionante, mas foi uma compilação de conhecimentos estabelecidos muito antes, que por sinal já circulavam na Europa. Quando Granada, atualmente parte da Espanha, caiu em 1492, herbários inteiros escritos em árabe foram queimados. Parte deles era dedicada a medicamentos e, ao que parece, continham informações sobre antibióticos, pois esse era um conhecimento razoavelmente bem difundido no Magreb. Cavaleiros sarracenos, por exemplo, usavam um fungo que nascia no couro das selas de seus cavalos para tratar seus ferimentos. O fungo era Penicillium notatum, membro de um gênero de fungos que hoje tem nome familiar. Núbios do Sudão usaram tetraciclina, uma substância antibiótica, no ano 350 da era moderna. Está preservada em seus ossos, dizem arqueólogos. A origem dessa tetraciclina é um mistério. Talvez tenha sido deliberadamente produzida em cervejas medicinais.

Novidade? Também não. Em 1991 um homem foi encontrado congelado em uma montanha do Tirol italiano. Quando morreu, 5.300 anos antes, tinha roupas de frio e carregava uma bolsa com comida, uma faca, um machado, um arco, flechas bem elaboradas, além de algo que parecia ser um pequeno amuleto mal trabalhado que ninguém sabia dizer exatamente o que era. Descobriu-se depois que não era um amuleto, mas a bétula de um fungo da madeira, com propriedades antibióticas. Tudo indica que ele levava na bolsa um medicamento.

Imagine viver com 14,50 reais por dia. Comprar uma moto usada? Trinta anos de poupança. Geladeira? Seis anos de poupança

As escolas ensinam que em 1928 Alexander Fleming foi o “pai da penicilina”. Seja lá o que significa ser “pai da penicilina”, em geral se insinua que de algum modo Fleming foi seu descobridor. Porém seu mérito verdadeiro não foi a descoberta, mas o esforço para produzi-la de forma pura. Um esforço que tinha paralelos com outros pesquisadores tentando — e conseguindo — purificar outros antibióticos.

O que essa história toda tem a ver com pobreza? Muito. O desenvolvimento de antibióticos teve resultados impressionantes nos padrões de morbidade e mortalidade humanos. Infecções que com frequência eram uma sentença de morte passaram a ser doenças de menor importância. O impacto foi tão grande que se sentiu até na demografia, com a população aumentando depois que a morte diminuiu os tributos que cobrava sobre as crianças. Antibióticos baratos são hoje uma forma importante de evitar a mortalidade infantil.

Remédios baratos para quem?

Na discussão sobre a viabilidade orçamentária e política do combate à pobreza ajuda muito compreender antes o que significa uma pessoa ser pobre. Ajuda também saber a importância imensa que os serviços públicos têm para as pessoas pobres, embora isso geralmente não seja computado nas linhas de pobreza. Tema que é particularmente importante em um país com muita gente de renda baixa.

Faça as contas. A linha utilizada pelo Banco Mundial para monitorar a extrema pobreza global é de 1,90 dólar por dia por pessoa em dólares internacionais com Paridade de Poder de Compra (PPC$), o que equivale, em valores de 2020, a cerca de 5 reais por dia por pessoa. Uma dose de um antibiótico barato, como a penicilina, custa 14 reais. Um tratamento típico para uma infecção branda envolve duas doses, 28 reais. Isso significa que uma mãe pobre que tenha que comprar o medicamento para cuidar de sua filha doente terá que passar cinco ou mais dias sem comer. Essa é a linha que balizou e seguiu como referência para a entrada no Bolsa Família até seu término, em 2021.

A linha de pobreza internacional considerada típica de países de renda média-alta como o Brasil é de ppc$ 5,50, isto é, 14,50 reais por dia por pessoa. Nesse caso, seriam “só” dois dias sem comer. O que torna isso mais dramático é que esses dois dias são o mundo real de quase um em cada cinco brasileiros. Mundo real, mesmo com a máquina de assistência em funcionamento. Quem acha que essa máquina já é suficiente ou mesmo que é grande demais vai entender melhor o que isso significa na prática se pular apenas o almoço e o jantar de amanhã e reler este texto mais tarde.

Viver na pobreza é viver sob uma pressão imensa. É uma população que depende muito de políticas públicas

Todo mundo quer mandar seus filhos à escola. Mesmo as pessoas que vivem na pobreza de ppc$ 5,50 ou 14,50 reais por dia. Um caderno, um lápis e uma caneta custam um dia sem comer. Um livro didático de matemática, barato, dois dias sem comer. O mesmo para português, ciências, história e geografia. É uma semana sem comer se esse material tiver que ser comprado. Aliás, é bem pior do que isso. A linha de pobreza assume que o valor é suficiente para todas as despesas de uma pessoa, não só as com alimentação. Isso inclui energia elétrica, gás, transporte para o trabalho e escola, saúde, educação, comunicações, higiene, lazer, habitação e o que mais for preciso para viver.

Com serviços públicos gratuitos a vida de qualquer família pobre já é dura. Sem esses serviços, é inviável. E não está errado dizer o mesmo de famílias que não são pobres, mas vivem perto da linha de pobreza. É preciso um nível de renda muito alto para que uma família possa prescindir de serviços públicos gratuitos ou subsidiados e não enfrentar insuficiência em outras dimensões da vida. Índices de pobreza multidimensional apontam insuficiência mesmo entre os 40% mais ricos, algo que dificilmente seria classificado como pobreza de renda.

Cada dia na vida de uma família no 1% mais rico compra pelo menos um mês da vida de uma família pobre. A mensalidade de uma escola privada barata em uma metrópole, 1.000 reais, compra quase dois meses e meio de todo o consumo de uma pessoa pobre — e isso para a linha mais alta, de 14,50 reais. Cinco meses para a mensalidade de uma escola mais cara, um ano para a de uma escola de elite.

Viver com 14,50 reais por dia

Outra forma de ver isso é pensar no que os pobres não conseguem comprar. Imagine o que é viver com 14,50 reais por dia. O local onde dá para morar, a comida que dá para comer, o lazer possível. Sob essa pressão é difícil não gastar tudo imediatamente. Porém, imagine ainda poupar 5% disso todos os dias. Dá 264 reais por ano. Comprar motocicleta com dez anos de uso para trabalhar como motoboy? Impossível: trinta anos de poupança. Uma geladeira nova, para uma alimentação saudável da família? Seis anos de toda a poupança. Uma máquina lavadora de roupas, que combina higiene à maior possibilidade de emprego regular? Mais seis anos de toda a poupança. Um tablet básico para o filho acompanhar escola à distância em um mundo digital? Um ano e meio da poupança.

Viver na pobreza é viver sob uma pressão imensa. É viver em uma situação sobre a qual as pessoas pobres têm pouco controle e capacidade de reversão. Um quinto do país ainda vive dessa forma. É uma população que depende da assistência e dos serviços públicos. Toda discussão sobre limitar a expansão ou mesmo reduzir essas políticas é uma disputa por autorizar a permanência desse estado das coisas ou, pior, agravá-lo. É preciso uma boa dose de insensibilidade para achar esse nível de pobreza algo moralmente tolerável.

Quem acha a pobreza inaceitável tem que entender que o combate à pobreza precisa melhorar. O Brasil gasta muito pouco com isso. Nossos programas de redução da pobreza funcionam muito bem e ainda precisam de expansão. Mesmo quando erram, eles geralmente erram pouco. Metade da população brasileira vive com menos de 30 reais por dia e em algum momento pode oscilar para dentro e para fora da pobreza. Um erro de focalização que não ultrapasse essa metade mais pobre não é grave. No entanto, um erro de focalização que deixe de fora pessoas muito pobres é importante. Por isso é melhor errar para mais que para menos.

Fonte: Folha de SP

FOME CRESCE NO BRASIL


Enviamos esta mensagem para informar que a Rede PenSSAN acaba de lançar os resultados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar em contexto do COVID-19 no Brasil. Este foi realizado por nós com o apoio dos parceiros do Instituto Ibirapitanga, ActionAid Brasil, Oxfam Brasil e Fundação Friedrich Ebert Brasil, e execução do trabalho de campo e coleta de dados pelo Instituto Vox Populi em dezembro de 2020. O relatório está disponível em: http://olheparaafome.com.br/
Contamos com o engajamento de todes para a divulgação em suas respectivas redes.
Abraços,
Rede PENSSAN

O GRANDE GEÓGRAFO MILTON SANTOS


GLOBALIZAÇÃO

O legado de Milton Santos: um novo mundo possível surgirá das periferias

Mayara Paixão

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 03 de Maio de 2019 às 05:35

Milton Santos em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977
Milton Santos em entrevista para o Jornal do Brasil, em 1977 – Foto: Reprodução/Site Milton Santos

Milton Santos (1926 – 2001) é reconhecido mundialmente como um dos maiores geógrafos brasileiros. Dedicou a vida a analisar sua época. Crítico feroz do modelo de relações internacionais que se fortalecia nas décadas de 1980 e 1990, acreditava ser possível e necessário pensar em outra forma de globalização.

O professor, de origem baiana, é responsável por desenvolver novas compreensões de conceitos como espaço geográfico, lugar, paisagem e região. Defendeu que o uso de um território é político e deve ser estudado para entender as sociedades. Deu atenção especial para a economia urbana dos países tidos como “subdesenvolvidos” e acredita que, uma vez unidos, os povos darão novo sentido à humanidade.

Para Milton, era preciso questionar os consensos já estabelecidos. Questionar, aliás, era a sua principal característica segundo conta Nina Santos, sua neta.

“Seu legado não é restrito a um conceito ou a uma questão social, ele é extremamente amplo. Acho que a principal herança de Milton Santos é justamente ressaltar a importância do questionar, do pensar diferente, de defender o seu ponto de vista mesmo que contra uma maioria que questiona a sua posição.”

Neste 3 de maio de 2019, ele completaria 93 anos. Milton Santos possui uma obra com mais de 40 livros publicados e, ao longo de sua carreira, recebeu o título de Doutor Honoris Causa em 20 universidades nacionais e internacionais.

Milton Santos recebendo o título Honoris Causa na Universidad de Barcelona, em 1996 (Foto: Reprodução/Site Milton Santos)

Da Chapada Diamantina para o mundo

Milton Santos nasceu em Brotas do Macaúbas (BA), na Chapada Diamantina, filho de uma família de professores primários. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e fez doutorado em geografia na universidade francesa de Strasbourg.

Além de professor universitário, o geógrafo também trabalhou como jornalista em periódicos como o diário “A Tarde”, o mais antigo da Bahia e um dos mais antigos do país. Milton teve dois filhos e quatro netos, tendo conhecido apenas dois em vida.

O geógrafo rompeu barreiras não apenas pelos pensamentos fora da curva, mas por ser um homem negro inserido em uma intelectualidade predominantemente branca. “Lembro de um episódio que contava em que foi barrado na portaria da USP, em um final de semana, e impedido de entrar porque o porteiro, também negro, duvidava que ele fosse efetivamente professor daquela instituição”, recorda-se a neta, Nina Santos.

O preconceito racial presente em seu cotidiano foi um tema que, apesar de não ter sido central, também permeou a obra de Milton Santos. Em uma de suas poucas palestras disponíveis em vídeo, ele afirmou que “a luta dos negros só pode ter eficácia se forem envolvidos todos os brasileiros: Não cabe só aos negros fazer essa luta. Ela tem que ser feita sobretudo por todos.”

O exílio na França

A partir do golpe de 1964, o contexto da ditadura civil-militar forçou ao exílio muitos dos intelectuais brasileiros. Milton Santos chegou a ser preso por sua atuação política e militância. Logo depois, partiu para o exílio na França. O baiano trabalhou como professor convidado em importantes universidades francesas, como as de Toulouse, Bordeaux e Sorbonne.

É neste cenário que a então jovem estudante de geografia Maria Adélia Souza conhece o professor em 1965. Na época, ela cursava o mestrado em Paris com o também renomado intelectual brasileiro Celso Furtado, amigo de Milton Santos. Em uma das reuniões de sua orientação acadêmica, conheceu o geógrafo.

“Foram duas horas da maior aula de economia e geografia que tive em minha vida, e já estou com 80 anos. Foi assim que eu conheci Milton”, conta.

O que Maria Adélia não imaginava era que naquele encontro começaria uma amizade e parceria acadêmica que durariam até os últimos dias da vida de Milton Santos. A geógrafa, hoje professora titular de Geografia Humana da USP, assistiu de perto a mudança que o baiano proporcionou nos estudos da geografia.

“Milton, sem dúvida, foi o refundador da geografia contemporânea”, defende a amiga e professora Maria Adélia Souza (Foto: Arquivo Pessoal)

Milton Santos também fez um grande esforço para romper a bolha da academia e levar suas ideias até quem ele tentava retratar: o povo brasileiro.

Por uma outra globalização (2000) é o primeiro livro que ele fala ‘Adélia, eu vou escrever um livro fácil para quem não for geógrafo entender, qualquer cara do povo entender’. Eu disse ‘Milton, você acha que alguém vai entender a mais-valia mundial, a convergência dos momentos, a unicidade técnica do planeta?’ Eu disse ‘ninguém entende isso, Milton’.”

Ao que parece, as pessoas entenderam. Sua obra e seu legado se tornam conhecidos em todo o mundo. Em 1994, Milton ganhou o maior prêmio da geografia mundial, o prêmio Vautrin Lud, consagrando-se como o único geógrafo brasileiro e latino-americano a consegui-lo até hoje.

Para Maria Adélia, o amigo foi mais do que um grande geógrafo: “Milton se tornou mais do que um geógrafo, ele se tornou um pensador do Brasil. A obra dele fundamenta uma perspectiva libertária para a humanidade. Por isso que Milton Santos foi genial.”

Um novo mundo possível

Em 1977, Milton Santos retorna do exílio e se torna reconhecido como um pesquisador engajado, enquanto leciona na Universidade de São Paulo (USP).

Quase duas décadas passadas da sua volta ao Brasil, no ano de 1995, o país assiste à posse do governo de Fernando Henrique Cardoso. Tem início a implementação de um pacote de medidas neoliberais. Empresas estatais foram privatizadas e o capital estrangeiro entrava com liberdade no país.

Foi nesse período que o cineasta Silvio Tendler, atualmente com 69 anos, conheceu o professor Milton Santos. “A minha surpresa foi conhecer um dos homens mais brilhantes da minha vida. Tudo o que ele fazia era com um sorriso muito irônico, sarcástico. Era uma pessoa ao mesmo tempo muito dura e muito doce, capaz de falar as coisas mais duras do mundo com um sorriso nos lábios”, recorda-se.

Talvez a análise mais crítica e reconhecida mundialmente feita pelo geógrafo tenha sido sobre a globalização. Aquela era também a época em que o conceito passou a aparecer com maior frequência no debate público e entre os movimentos populares.

Silvio Tendler, por exemplo, ficou encantado com a possibilidade das barreiras da distância supostamente rompidas: a possibilidade de viajar, a baixa no preço dos produtos vindos de fora. Uma breve conversa com Milton Santos mudou a visão do jovem cineasta:

“Eu estava um pouco seduzido por esses processos. Conversei sobre isso com Milton Santos e ele era extremamente crítico. Eu falei ‘mas professor, por que o senhor está fazendo essa crítica se as pessoas estão extremamente seduzidas por essa possibilidade?’, aí ele falou: ‘É muito simples. Porque não vai ter para todo mundo.’”

As palavras marcaram a memória de Tendler. No ano 2000, ele voltou a procurar o amigo Milton Santos. Uma pequena entrevista que deveria durar dez minutos rendeu um material de duas horas, que daria origem ao documentário Encontro com Milton Santos: O Mundo Global Visto do Lado de Cá, lançado no ano de 2006 e premiado em diversos festivais de cinema.  

O filme retrata a análise de Milton Santos sobre o processo de globalização. Para o geógrafo, das periferias globais sairia a possibilidade de uma nova relação entre os países do globo, com mais igualdade e menos injustiça entre os povos. A cultura popular e a crescente capacidade de se comunicar impulsionada pelas novas tecnologias da informação dariam resultados.

Segundo Tendler, o documentário, mesmo mais de uma década depois de lançado, permanece atual. “É um filme que não envelhece pela atualidade das coisas que Milton Santos fala e pelas bobagens que se fazem no mundo”, opina.

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