MARÇO DAS MULHERES


Março das Mulheres | Conheça a verdadeira história do 8 de março

Pesquisadora afirma que a origem da data foi propositalmente dissociada da luta das trabalhadoras da União Soviética

Lu Sudré

Brasil de Fato | São Paulo (SP) | 

Russas soviéticas contribuíram para estabelecer o 8 de março como o Dia Internacional das Mulheres
Russas soviéticas contribuíram para estabelecer o 8 de março como o Dia Internacional das Mulheres – (Arte: Wilcker Morais)

Todos os anos, divulga-se a história de que o Dia Internacional da Mulher surgiu em homenagem a 129 operárias estadunidenses de uma fábrica têxtil que morreram carbonizadas, vítimas de um incêndio intencional no dia 8 de março de 1957, em Nova York. Segundo a versão que circula no senso comum, o crime teria ocorrido em retaliação a uma série de greves e levantes das trabalhadoras. 

Embora essa seja a narrativa mais conhecida, quando se fala sobre a origem da data comemorativa, ela não é verdadeira.

O primeiro registro remete a 1910. Durante a II Conferência Internacional das Mulheres em Copenhague, na Dinamarca, Clara Zetkin, feminista marxista alemã, propôs que as trabalhadoras de todos os países organizassem um dia especial das mulheres, cujo primeiro objetivo seria promover o direito ao voto feminino. A reivindicação também inflamava feministas de outros países, como Estados Unidos e Reino Unido.

No ano seguinte, em 25 de março, ocorreu um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist, em Nova York, que matou 146 trabalhadores — incluindo 125 mulheres, em sua maioria mulheres imigrantes judias e italianas, entre 13 e 23 anos. A tragédia fez com que a luta das mulheres operárias estadunidenses, coordenada pelo histórico sindicato International Ladies’ Garment Workers’ Union(em português, União Internacional de Mulheres da Indústria Têxtil), crescesse ainda mais, em defesa de condições dignas de trabalho.

As russas soviéticas também tiveram um papel central no estabelecimento do 8 de março como data comemorativa e de lutas. Por “Pão e paz”, no dia 8 de março de 1917, no calendário ocidental, e 23 de fevereiro no calendário russo, mulheres tecelãs e mulheres familiares de soldados do exército tomaram as ruas de Petrogrado (hoje São Petersburgo). De fábrica em fábrica, elas convocaram o operariado russo contra a monarquia e pelo fim da participação da Rússia na I Guerra Mundial. 

A revolta se estendeu por vários dias, assumindo gradativamente um caráter de greve geral e de luta política. Ao final, eliminou-se a autocracia russa e possibilitou-se a chegada dos bolcheviques ao poder.

A atuação de mulheres russas revolucionárias como Aleksandra Kollontai, Nadiéjda Krúpskaia, Inessa Armand, Anna Kalmánovitch, Maria Pokróvskaia, Olga Chapír e Elena Kuvchínskaia, é considerada imprescindível para o início da revolução.

“A história real do 8 de março é totalmente marcada pela história da luta socialista das mulheres, que não desvincula a batalha pelos direitos mais elementares — que, naquele momento, era o voto feminino — da batalha contra o patriarcado e o sistema capitalista”, ressalta a historiadora Diana Assunção, integrante do coletivo feminista Pão e Rosas.


Por “Pão e paz”, mulheres deram início à Revolução Russa (Foto: Reprodução)
 

A pesquisadora explica que houve uma articulação histórica para esvaziar o conteúdo político do 8 de março, transformá-lo em “uma data simbólica inofensiva” e em um nicho de mercado, apagando sua origem operária. 

“No dia da mulher, compram-se flores e presentes para as mulheres. Tentam esconder o conteúdo subversivo do significado desse dia, que é questionar o patriarcado. Tentam esconder que a luta das mulheres sempre esteve vinculada à luta socialista, perigosa para o status quo”, acrescenta Assunção. 

Em 1921, na Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, o dia 8 de março foi aceito como dia oficial de lutas, em referência aos acontecimentos de 1917. A data foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975.

Retornar às origens

A cada 8 de março, as mulheres trazem à tona questionamentos sobre a hipocrisia em torno das homenagens que recebem apenas nessa data. Em todos os dias do ano, o gênero feminino é o principal alvo da violência e da desigualdade. 

Em resposta, trabalhadoras em todo o mundo se organizam cada vez mais pela defesa de seus direitos. Em 2017 e 2018, elas organizaram uma greve internacional com adesão de 40 países, com o lema “Se nossas vidas não importam, que produzam sem nós”.  Assunção comemora o “resgate de um método de luta da classe operária de enfrentamento aos patrões e aos capitalistas”. 

“O que estamos vendo é justamente que a revolta e a luta de classes têm rosto de mulher a nível internacional, com a luta a que estamos assistindo nos últimos anos, com essa verdadeira primavera feminista no mundo inteiro, com enormes marchas. Mas, agora, com uma cara cada vez mais operária”, ressalta. “As mulheres são metade da classe operária, e as mulheres negras estão mostrando que são linha de frente em vários processos de luta”. 

A historiadora avalia que é importante resgatar a verdadeira origem do Dia Internacional da Mulher, pois, segundo ela, foram as proletárias que avançaram efetivamente em medidas concretas para atacar os pilares que sustentam a opressão às mulheres. “Mais do que nunca, precisamos da organização dos trabalhadores com as mulheres à frente, mostrando que são vanguarda, inclusive da classe operária. Enfim, sacudindo os movimentos, os sindicatos, com toda força expressada internacionalmente”, enfatiza. 

Assunção possui grandes expectativas para o 8 de março de 2019, comemorado com mobilizações em dezenas de países e em todos os estados do Brasil. “O oito de março que estamos vivendo agora precisa ser internacional, como parte da luta por uma paralisação internacional de mulheres, que enfrente o Bolsonaro [PSL], que enfrente todos os presidentes da extrema direita. Essa é a perspectiva que deveria ser levada à diante. Por Marielle e por todas as mulheres assassinadas. É preciso entender que o capitalismo é uma suja prisão, e que precisamos lutar por uma nova sociedade”, defende a pesquisadora, ressaltando, mais uma vez, o legado das mulheres revolucionárias. 

Essa matéria faz parte do especial Março das Mulheres, produzido pelo Brasil de Fato. 
 

Edição: Mauro Ramos

Fonte: Brasil de Fato

FLORAN TRISTAN, UMA SEMENTE SUBVERSIVA


Luna Ribeiro Campos*

No dia 7 de abril de 1803, há exatos 218 anos atrás, nascia Flore Celestine Therèse Henriette Tristán y Moscoso, mais conhecida apenas como Flora Tristan. Trabalhadora, mãe e escritora, Flora Tristan fez parte de uma geração de mulheres que contribuiu para a emergência do socialismo francês. Sua intervenção nos debates políticos e filosóficos dos anos 1830-40 se deu através da publicação de livros, artigos, panfletos e ensaios onde desenvolveu uma série de argumentos em torno de dois pontos principais: a condição legal e moral de subalternidade das mulheres e as condições precárias de vida e trabalho da classe operária. 

Os itinerários de Flora Tristan permitem iluminar o incipiente debate que surgia na Europa nas primeiras décadas do século XIX ao redor das ideias socialistas e feministas, no qual ela viria a ter papel de destaque. Sua aproximação dos círculos socialistas se deu a partir dos grupos formados em torno de três grandes referências: Saint-Simon, Charles Fourier e Robert Owen – que muitos de nós conhecem apenas como “socialistas utópicos”, segundo a classificação feita por Marx e Engels no Manifesto Comunista. O fato de compartilharem visões mais ou menos progressistas sobre as relações de gênero e o casamento atraiu muitas mulheres para essas correntes teóricas, o que contribuiu para que a questão da emancipação feminina ganhasse espaço e fosse pensada – pelo menos por elas – lado a lado com a luta da classe trabalhadora.    

Filha de uma francesa de origem humilde e de um peruano membro do exército espanhol, oriundo de uma das famílias mais ricas do Peru, Flora nasceu na França e passou seus primeiros anos numa casa confortável nos arredores de Paris. A morte prematura do pai, quando Flora tinha quatro anos, deixou filha e mãe em uma situação financeira precária, uma vez que a união de seus pais foi feita de maneira clandestina e elas não tiveram direito à herança paterna. Assim, além de deserdada, Flora também carregava o peso de ser uma filha ilegítima (estatuto dos filhos nascidos fora do casamento, bastardos). Além disso, após um curto e infeliz casamento com um homem violento, e impossibilitada de se divorciar, Flora se tornou uma mulher separada, acumulando mais uma característica desfavorável para as mulheres naquele contexto.

Esses fatores, marcantes em sua biografia, serão refletidos e teorizados em diversos momentos de sua obra, se condensando na figura do pária– metáfora utilizada por Tristan para descrever a situação das mulheres em geral e a si própria, se estendendo posteriormente para incluir os excluídos, os escravizados. Em suma, a imagem do pária representa todos aqueles e aquelas considerados indignos de “participar dos benefícios da humanidade”, que ficaram de fora das promessas de igualdade da Revolução Francesa. Segundo Eleni Varikas, “o pária remete à escravidão, à subjugação, à ideia de uma situação objetiva – um sistema de exploração econômica e exclusão política -, mas contém ainda uma forte carga de subjetividade e intersubjetividade ligadas às percepções que a sociedade tem dele” (Varikas, 2014: 51).

A vida de Flora Tristan foi marcada por muitas viagens, trânsitos e deslocamentos, motivados por razões diversas. Durante os anos 1820, trabalhando como dama de companhia para uma família abastada, faz suas primeiras viagens à Inglaterra. Esse trabalho também funcionou como uma maneira de fugir do marido, que não aceitava a separação e a perseguia. Em 1833, na expectativa de resgatar a herança paterna, Flora embarca sozinha para o Peru. A viagem, que durou ao todo quase um ano, é um ponto de inflexão na obra da autora, pois é ao retornar à França que começa a publicar seus escritos. O contato com a realidade latino-americana, com a escravidão, com a família que nega reconhecê-la como filha legítima; suas experiências como uma mulher que não encontra lugar no mundo, que se sente à margem da família, da nação e das leis, tudo isso vai ser utilizado como fertilizante para suas reflexões teóricas e políticas.  

Em 1835 estreia com um pequeno texto intitulado Necessidade de acolher bem as mulheres estrangeiras, onde analisa a questão da migração e dos deslocamentos a partir de uma perspectiva de gênero, apontando para as dificuldades e os constrangimentos enfrentados pelas mulheres. O panfleto, cujo conteúdo é extremamente atual, reflete uma preocupação da autora com as mulheres que, como ela, viajavam sozinhas e eram (ou se sentiam) estrangeiras. Além de refletir sobre o declínio das práticas hospitaleiras e da solidariedade nas grandes cidades, Flora Tristan já esboça muitos dos temas que vão figurar em sua obra posterior. O compromisso internacionalista, a luta pela autonomia feminina, a percepção de como gênero e classe são fatores que se determinam mutuamente e a necessidade de superar o isolamento individual através de associações, da organização coletiva. 

Em 1837 ela publica os relatos da viagem ao Peru em uma obra de fôlego, intitulada Peregrinações de uma pária. Além das observações típicas sobre os locais visitados, Tristan abordou temas como escravidão, economia, política, cultura, costumes e direito. O relato, que também é recheado com seus dramas pessoais por causa da difícil relação com a família peruana, se destaca pela atenção concedida à observação da vida das mulheres – criollas, indígenas, escravizadas e europeias – e pela defesa do direito ao divórcio, considerado pela autora como a causa dos seus males.

As sucessivas viagens à Inglaterra deram origem ao livro Passeios em Londres (1840), onde a autora documenta as péssimas condições de vida do proletariado inglês. Embora dessa época nos seja mais conhecido o livro de Engels, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, este só foi publicado cinco anos depois, em 1845, e apesar de não fazer referência explícita a Tristan, é evidente sua intertextualidade. Além de fábricas, Tristan visitou e escreveu sobre os bairros mais pobres de Londres, sobre prisões, casas de prostituição, hospitais psiquiátricos e orfanatos, com o objetivo de expor o drama social vivido pelo povo da maior potência do século XIX.  

Um de seus livros mais importantes, e que a lançou como figura inescapável da história e da luta do movimento operário, se intitula União Operária e foi publicado em 1843, com uma primeira tiragem de 4 mil exemplares feita através de contribuições voluntárias, obtidas por um trabalho feito de porta em porta nos arredores de Paris. Neste livro, Tristan expande a definição de operário: “[…] entendemos por operário e operária todo indivíduo que trabalha com suas mãosnão importa como. Assim, empregados domésticos, porteiros, mensageiros, lavradores e toda gente pobreserão considerados operários” (Tristan, 2015:137). 

União operária é uma iniciativa ao mesmo tempo teórica e prática: Tristan demonstrou a necessidade da constituição política da classe trabalhadora e se esforçou para colocar essa ideia em prática ao viajar por dezenas de cidades na França para ler e divulgar seu livro entre operários e operárias – Tristan faz questão de marcar o gênero das palavras para deixar clara a presença das mulheres. É neste livro que a autora apresenta um desenvolvimento teórico mais apurado das formas de organização do proletariado e aponta algumas ideias-chave: o princípio da autoemancipação da classe trabalhadora; a urgência em instruir as mulheres e os homens do povo e a convicção de que constituição da classe operária só pode ser bem sucedida se for reconhecido o princípio da igualdade de direito entre o homem e a mulher.  

 É nesta obra também que Tristan reflete sobre as causas históricas da inferioridade feminina. A autora dedica um capítulo inteiro – “Por que eu menciono as mulheres” – para abordar essa situação: “até o momento a mulher não contou para nada nas sociedades humanas. – Do que isto resulta? Que o padre, o legislador e o filósofo a trataram como uma verdadeira pária. A mulher (é a metade da humanidade) foi colocada fora da igreja, fora da lei, fora da sociedade […]”. (Tristan, 2015:110). Além de denunciar a opressão das mulheres em geral e das operárias em particular, União operária é uma obra original por atrelar a emancipação dos operários à das mulheres, geralmente ausentes das tentativas de organização dos trabalhadores.

A produção escrita de Flora Tristan pode e deve ser inserida dentro da tradição do pensamento socialista que se formou durante a primeira metade do século XIX, geralmente ofuscada pela produção marxista posterior. Seu pensamento faz parte da trama mais ampla que foi nutrindo e inspirando os trabalhadores e as revoluções posteriores e contribuindo para a constituição do movimento operário (Díaz, 2012).     Sua obra nos mostra que esse ambiente intelectual e político foi marcado pela produção teórica e pela militância de mulheres que fizeram reivindicações que hoje podemos chamar de feministas. Se posteriormente a causa da emancipação feminina perdeu a centralidade nos projetos mais amplos de emancipação da classe trabalhadora, certamente não foi por falta de referências. O chamado que encerra o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels em 1848, “proletários de todos os países, uni-vos!”, captura, ao fim e ao cabo, um espírito político de todo familiar à União Operária,idealizada por Flora Tristan quatro anos antes. 


* Professora de Sociologia no CEFET-RJ. Doutoranda em Ciências Sociais na UNICAMP.


Referências

DÍAZ, Hernán M. “Flora Tristán: su papel en la constitución del socialismo y de la clase obrera francesa”. Revista Archivos de historia del movimiento obrero y la izquierda, no 1, 2012.
TRISTAN, Flora. Nécessité de faire un bon accueil aux femmes étrangères. Édition présentée et commentée par Denys Cuche, postface de Stéphane Michaud. Paris, L’Harmattan, 1988.
TRISTAN, Flora . Peregrinações de uma pária. Florianópolis: Editora Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2000 [1838].
TRISTAN, Flora . Promenades dans Londres ou L’aristocracie et les prolétaires anglais. Paris: François Maspero, 1978 [1840].
TRISTAN, Flora. União Operária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2016 [1843].
VARIKAS, Eleni. A escória do mundo – as figuras do pária. São Paulo: Editora UNESP, 2014.

13 DE MAIO


Confira a história de seis mulheres negras protagonistas da abolição da escravidão

Alma Preta

  • Combatentes da luta pelo fim do regime escravista, elas dedicaram à vida pela libertação de seus futuros descendentes e não são reconhecidas pela história como deveriam
  • Confira a quinta matéria da série “O mito da abolição”, que toma como ponto de partida o 13 de maio para refletir sobre as práticas racistas que perduram na nossa sociedade e demonstram a importância de olhar para o hoje desmistificando mentiras contadas no passado

A história oficial da abolição da escravidão no Brasil dá conta de que no dia 13 de maio de 1888 a Princesa Isabel, filha de Dom Pedro II, assinou à Lei Áurea, decretando assim, de forma simples, o fim da escravidão no Brasil. Na realidade, fora dos livros escolares e da dramaturgia, sabe-se que o processo anti-escravismo não começou ali e seus protagonistas foram outros.

Há nomes conhecidos como o do líder quilombola Zumbi dos Palmares, do engenheiro André Rebouças e o do jornalista Luiz Gama, mas a luta contra a desumanização da população negra no período colonial teve como alicerce também mulheres negras. Elas comandaram grupos de resistência contra o escravismo, documentaram o próprio sofrimento e reivindicaram sua humanidade bravamente. Conheça seis dessas mulheres abolicionistas:

1. Aqualtune

Princesa africana, filha do rei do Congo, no final do século XVI, Aqualtune precisou enfrentar um grupo de mercenários que invadiram sua nação e, apesar de comandar um grupo de cerca de 10 mil homens e mulheres contra os invasores, seu povo foi derrotado. Assim, a princesa guerreira foi capturada e trazida para o Brasil em 1597 na condição de escrava reprodutora.

Chegou no Recife, em Pernambuco, já grávida e foi levada para uma fazenda em Porto Calvo, Alagoas. Foi nessa região que ouviu os primeiros relatos sobre um reduto de africanos livres e decidiu comandar uma fuga para ajudar a construir aquele que se tornou o maior símbolo da resistência negra em terras brasileiras, o Quilombo dos Palmares, instalado na Serra da Barriga.

Graças a seu histórico combativo, Aqualtune recebeu uma aldeia para liderar e ajudou a erguer o que seria “um império em meio à selva”. Além de sua visão administrativa, gerou filhos importantes para a consolidação da resistência africana em terras brasileiras como os guerreiros Gamba Zumba, Gana Zona, e Sabina, mãe de Zumbi, o último líder do Quilombo dos Palmares. A líder quilombola desapareceu dos registros históricos em 21 de setembro de 1677, quando sua cidade foi atacada por tropas portuguesas. Na época do ataque, ela já era idosa.

Aqualtune. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Aqualtune. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

Leia também:

2. Maria Firmina dos Reis

Considerada a primeira romancista brasileira, Maria Firmina Reis também é autora do primeiro romance abolicionista, “Úrsula”, que narra a condição da população negra no Brasil. A partir de elementos da tradição africana, Firmina é considerada pioneira na crítica antiescravista da literatura brasileira, antes até de “Navio negreiro” (1880), de Castro Alves, e “A Escrava Isaura” (1875), de Bernardo Guimarães.

Negra, filha de mãe branca e pai negro, nasceu na olha de São Luís, no Maranhão, em 1822, e foi registrada sob o nome de um pai ilegítimo. O romance “Úrsula” é tido como um instrumento contra a escravidão por meio da humanização de personagens que retratou. Quando se tornou professora, em 1847, Firmina já tinha uma postura antiescravista. Ao ser aprovada no concurso, recusou-se a andar em um palanque desfilando pela cidade de São Luís nas costas de escravos.

Maria Firmina dos Reis. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Maria Firmina dos Reis. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)

3. Esperança Garcia

Negra e escravizada, Esperança Garcia provavelmente é autora do primeiro ‘Habeas Corpus’ que se tem registro no Brasil. No ano de 1770, no Piauí, ela escreveu uma carta que revolucionou a história do país. No texto, Esperança se queixa de uma série de maus tratos praticados pelo administrador da fazenda em que vivia. O documento foi revelado em 1979, pelo historiador Luiz Mott, que descobriu uma cópia no arquivo público do Estado. Acredita-se que a carta original esteja em Portugal.

Atualmente, essa é considerada a primeira reivindicação, ou petição, de uma escravizada no Brasil que foi enviada a uma autoridade. Além disso, até agora esse é o primeiro documento encontrado no Piauí que levou a assinatura de uma figura feminina.

Esperança Garcia. Ilustração: Stefany Lima (@ste_fanylima)
Para ler mais, clique aqui

MULHERES NA MEDICINA |AS PIONEIRAS


Maria Amélia Cavalcanti de Albuquerque

As pioneiras da medicina no Brasil e Pernambuco

As pioneiras da Medicina no Brasil e Pernambuco

Mário V. Guimarães        

  Foi no fim do século XIX que a mulher brasileira resolveu desafiar os rígidos princípios da época, enfrentou a sua intangibilidade e ir de encontro a tudo que a cercava, e estudar medicina. Era uma época em que até ir a um médico para uma consulta que se impunha constituía um desafio, pois a moralidade reinante não admitia que o corpo da mulher, solteira ou casada, fosse tocado ou vislumbrado por um estranho. Óbitos foram inclusive registrados face a recusa formal da própria paciente ou de seus familiares, em permitirem o exame médico. Predominavam na época as parteiras e as chamadas “curiosas”. Entre as primeiras algumas estrangeiras e devidamente qualificadas, que para aqui vinham por saberem dos costumes vigentes. Só em 1879, foi que ato do imperador D.Pedro II abriu as escolas médicas brasileiras para as mulheres.         Surgiu então a primeira desafiante: MARIA AUGUSTA GENEROSO ESTRELA, nascida no Rio de Janeiro em 1860, filha de um rico comerciante português, bem criada, e que aos 14 anos resolveu estudar medicina. Foi em 1875, para os Estados Unidos, tendo enfrentado alguns percalços face a idade. Só no ano seguinte conseguiu matricular-se na New York College and Hospital for Women, terminando o curso em 1879, mas teve de esperar por março de  1881, quando completou maioridade, então foi diplomada solenemente tendo recebido uma medalha de ouro pela melhor dissertação de tema clínico, e ainda foi a oradora da turma. Naquele ano, graduaram-se apenas quatro médicas, sendo duas norte americanas, uma alemã e uma brasileira. Detalhe: Durante o curso o pai perdeu a fortuna e ela foi ajudada pelo imperador D Pedro II, um Mecenas da época,que lhe concedeu uma pensãoanual de 1.500$000 réis para seu estudo. Faleceu em 1946.        Contudo, a primeira médica brasileira a se formar numa faculdade brasileira, foi a gaúcha RITA LOBATO VELHO LOPES. Formou-se na Bahia em 1887, setenta e nove anos após a criação do curso médico. Nasceu em 1867, e faleceu em 1954. Recebeu o diploma após defender a tese “métodos preconizados nas operações cesarianas”.        A segunda médica a colar grau em uma escola brasileira também era gaúcha. ERMELINDA LOPES DE VASCONCELOS, nascida cega por infecção e depois curada, foi a primeira formada no Rio de Janeiro em 1888. Nasceu em 1866 e faleceu na década de 50. Defendeu a tese intitulada “Formas clínicas da meningite na criança, diagnóstico diferencial”.        Quanto a Pernambuco, a nossa primeira médica foi MARIA AMÉLIA CAVALCANTI  DE ALBUQUERQUE, que também teria sido a nossa pioneira na toco-ginecologia, por ter exercido vitoriosamente a especialidade. Também chamada de Dra Amélia Cavalcanti, ou ainda Amélia Doutora, como era conhecida. Filha de João Florentino Cavalcanti de Albuquerque e Herundina de Siqueira Cavalcanti de Albuquerque, nasceu em 8 de agosto de 1854, na casa grande do engenho Dromedário, Sirinhaém, Zona da Mata. Formou-se no Rio de Janeiro em 16 de janeiro de  1892, defendendo a tese “Do eritema nodoso palustre”. Foi também a primeira médica a clinicar no Recife, com consultório na Rua 1ª Março, atual Conde da Boa Vista. Faleceu cega em 27 de outubro de 1934, mas com grande apoio de familiares e amizades que soube conquistar. Coincidência: Em 1934, formaram-se as primeiras médicas pela Faculdade de Medicina do Recife.        As primeiras médicas formadas pela FMR, foram as paraibanas EUDESIA DE CARVALHO VIEIRA, de Livramento, e NEUSA VINAGRE DE ANDRADE, de João Pessoa, antiga Paraíba do Norte, isto em 21 de dezembro de 1934. A terceira medica da FMR foi a também paraibana ARACILDA BENTHEMMULLER MEDEIROS, em cerimônia realizada no então teatro moderno, em 06 de dezembro de 1935. Neste mesmo ano, tivemos também a formatura da primeira pernambucana ISAURA LEMOS MESQUITA, nascida em 07de fevereiro de 1910, e diplomada em cerimônia simples na secretária da faculdade em 26 de março de 1936.       Como vemos, muito diferente dos dias atuais nos quais há uma predominância absoluta do elemento feminino, enriquecendo, estimulando e embelezando as nossas faculdades.        OBS: Agradecemos ao Dr Cláudio Renato Pina Moreira(Unicordis), sua valiosa colaboração para esse trabalho, assim como dados colhidos do livro “ Uma ciência da diferença: sexo e gênero na medicina da mulher”, de Fabíola Rhoden (Edt.Fiocruz ).                                                    Recife, 29/05/06. Cópia de um e-mail recebido do pernambucano Delano M. de Barros Carvalho e residente na cidade de Saint Petersbourg, FL, USA :       “Pesquisando sobre a minha família, li com interesse o artigo sobre Maria Amélia de Carvalho e Albuquerque. Gostaria de acrescentar um outro dado interessante.O avô de Amélia Doutora foi o Dr. Aluízio Marques, filho de José Marques, o primeiro médico negro de Pernambuco. Ele casou com uma das filhas do meu tetravo, o Cel. Florentino Cavalcanti de Albuquerque, que por ironia, foi “guabirú-mor” (defensor da escravidão). Cearense, radicado em Cimbres, hoje Peaqueira, em 1845, onde foi dono de muitos engenhos.”  (O Dr. Aluízio Marques foi diretor da Casa da Saúde São Vicente , no RJ. em 1836).

Leia mais: http://m.sbhm.webnode.com.br/news/as-pioneiras-da-medicina-no-brasil-e-pernambuco/

AS BRUXAS DA NOITE


As temidas mulheres soviéticas que venceram os nazistas

As “bruxas da noite” que aterrorizaram os alemães: acompanhe a história das temidas pilotas soviéticas que voavam na escuridão para bombardear tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

A capitã de aviação Masha Dolina, do regimento de bombardeio pesado 587, em 1941

Em junho de 1941 a Alemanha nazista deu início à chamada Operação Barbarossa com o objetivo de invadir o território da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Os soviéticos mobilizaram uma força militar gigantesca para conter as tropas de Adolf Hitler e um corajoso grupo de mulheres aviadoras tiveram um papel decisivo neste momento histórico: As Bruxas da Noite.

Na primeira metade do século XX, a presença feminina nas forças armadas de qualquer país era incomum, com exceção das mulheres que atuavam como enfermeiras ou faziam serviços burocráticos, além de outras tarefas pontuais. A União Soviética destoava das demais potências. Pioneiros, os russos abriram espaço para as mulheres na linha de frente do conflito: elas eram mecânicas, atiradoras de elite (função na qual tiveram grande destaque), instrutoras, médicas, pilotas de tanques e, como veremos, integrantes da força aérea do temido Exército Vermelho.

Celebridade Soviética

Os esforços para a criação de um regimento aéreo vieram em grande parte da coronel Marina Mikhailovna Raskova, que, na época, era uma celebridade na União Soviética. Além de quebrar vários recordes de distância de voo, ela era pioneira em diversas áreas. Foi a primeira mulher navegadora da Força Aérea Soviética e a primeira mulher instrutora na Academia Aérea Zhukovskii.

Havia um bom tempo que Raskova tentava convencer as lideranças soviéticas da importância de se criar regimentos femininos na aviação quando, no ano de 1941, o líder Joseph Stalin finalmente concordou com sua proposta. Nasciam ali três regimentos femininos na força aérea soviética.

Os regimentos criados eram o 586º de caças, o 587º de bombardeiros de mergulho bimotor e o 588º de bombardeiros noturnos. Apesar de inicialmente serem ocupados apenas por mulheres, no decorrer do conflito, algumas posições femininas foram ocupadas por homens, mas o regimento 588º se manteve composto exclusivamente por mulheres. Elas não só consertavam e pilotavam aeronaves como, também, comandavam e administravam tudo por lá.

A coronel aviadora russa Marina Raskova.

Diante das pressões impostas pelo avanço da Alemanha, o tempo de treinamento das voluntárias era curto, de apenas seis meses (antes, era de quatro anos). Elas eram formadas por Raskova, que, além da experiência como piloto, conseguia preparar as jovens para um ambiente até então predominantemente masculino. As missões femininas tiveram início oficialmente em 1942, na Ucrânia, quando Valerya Khomiakova ficou conhecida por ser a primeira pilota soviética a abater uma aeronave inimiga durante a noite – era um JU-99 alemão.

As temidas Bruxas da Noite

O 588º Regimento de Bombardeiros Noturnos (mais tarde conhecido como 46º Regimento de Aviação de Bombardeiros Noturnos da Guarda “Taman”) ficou conhecido graças às aviadoras que foram apelidadas pelo exército alemão de “bruxas da noite” (a pesquisadora russa Lyuba Vinogradova acredita que elas mesmo podem haver se apelidado assim). Comandado pela experiente major Yevdokia Bershanskaya, o regimento era formado por jovens voluntárias, em sua maioria universitárias, algumas ainda adolescentes, cujas idades não passavam dos 20 anos. O Regimento operava sempre à noite, como uma forma de cumprir as missões de modo inesperado para os alemães. Além de tropas, veículos de suporte e depósitos de combustíveis estavam entre seus alvos estratégicos.

O regimento feminino atuou em cerca de 24 mil missões e a maioria de suas combatentes participou de pelo menos 800 voos, em condições difícilimas nos aviões biplanos Polikarpov Po-2 com cabine de pilotagem era totalmente aberta, que não protegia as tripulantes dos ventos gelados, tampouco de disparos alemães. No auge de seu funcionamento, o regimento possuía 40 equipes formadas por duas mulheres cada.

Regimento de aviadoras soviéticas em campo de treinamento

Com uma sucessão de missões bem-sucedidas, a fama das combatentes do 588º regimento só crescia. O apelido dado pelos alemães tinha um tom pejorativo. O nome “bruxas da noite” se deu pelo modo como as aviadoras atacavam os soldados nazistas. Ao se aproximarem dos alvos, elas desligavam os motores dos aviões para não chamar a atenção do inimigo e o som do vento em contato com as asas produzia um barulho apavorante para os soldados no solo, que só percebiam o que estava acontecendo quando já era tarde demais. No fim, o apelido acabou se tornando um elogio para as aviadoras.

Os bombardeios feitos pelo 588º Regimento configuravam uma tática psicológica que estressava o inimigo e diminuía sua capacidade de lutar. As aviadoras eram, ao mesmo tempo, desprezadas e temidas, e o piloto alemão que conseguisse abatê-las era condecorado com a medalha “Cruz de Ferro”, uma das mais altas honrarias do Exército alemão. As bruxas utilizavam as aparentes desvantagens do Po-2 a favor delas. Isso valia, por exemplo, para a baixa velocidade e a ótima manobrabilidade do avião, que facilitavam a localização precisa de alvos terrestres com voos em altitude bastante baixa e davam poucas chances aos soldados alemães de se esconder.

Responsável pela criação dos regimentos, Marina Raskova morreu em 1943, durante o conflito, com apenas 30 anos de idade, quando tentava fazer um pouso forçado na margem do rio Volga. Ela recebeu o primeiro funeral de estado de guerra. Raskova foi postumamente condecorada com a Ordem da Guerra Patriótica Primeira Classe. O regimento funcionou até o encerramento da Segunda Guerra, em 1945, e 23 de suas representantes foram agraciadas com a Estrela de Ouro de Herói da União Soviética.

Honra e glória imortalizadas

A URSS mobilizou suas mulheres na luta de vida ou morte contra os nazistas, de uma forma que nunca ocorrera antes nem voltou a ocorrer depois. Quase um milhão de soviéticas engrossaram as fileiras do Exército Vermelho, em todos os postos: sapadoras, tanquistas, franco-atiradoras (tema do próximo livro de Vinogradova), operadoras de metralhadora… Ao todo, 92 delas foram condecoradas como Heroínas da União Soviética.

As soviéticas foram as únicas mulheres do mundo a pilotarem aviões em missões de combate naquele sangrento conflito, enfrentando de igual para igual em numerosas ocasiões os ases da Luftwaffe de Hitler, aos quais impunham surpresas às vezes letais.

Fonte: Frente Trabalhista

%d blogueiros gostam disto: