HISTÓRIAS DO RECIFE

RECIFE ANTIGO

A escrava que falava inglês

Em sua edição de 31 de julho de 1848, o Diario de Pernambuco publica anúncio, de certa forma curioso para os dias de hoje, em que tanto se fala da importância do conhecimento de mais de uma língua: “vende-se uma escrava de dezoito anos, de bonita figura e bons costumes, e que serve bem a uma casa, por ter sido educada por uma senhora inglesa, a qual também fala inglês, cose, cozinha, engoma e lava; na Rua do Livramento n.º 36”.

Por muitos anos a imprensa viu no negro escravo um objeto de negócio, classificando-o entre os semoventes – tratado por “cabra” a se confundir com o próprio animal -, e só muito depois é que veio despertar para a chaga da escravidão.

Para a grande massa escrava, que integrava a população do Brasil e acalentou na Independência o seu sonho de liberdade, a imprensa periódica que surgia nada mais era que uma nova forma de negócio. O Diario de Pernambuco, a exemplo de todos os demais jornais de sua época, não fugia à regra, como se depreende do enunciado do seu primeiro número, que se propunha publicar: “…Roubos – Perdas – Achados – Fugidas e Apreensões de escravos […] Amas de Leite etc., tudo quanto disser respeito a tais artigos; para o que tem convidado todas as pessoas, que houverem de fazer estes ou outros quaisquer anúncios…”.

Sobre o assunto, observa Joaquim Nabuco em 1883, quando da publicação de O Abolicionismo, cuja reedição, fac-similar da primeira, fizemos publicar em 1988 pela Editora Massangana: ” em qualquer número de um grande jornal brasileiro – exceto tanto quanto sei, na Bahia, onde a imprensa da capital deixou de inserir anúncios sobre escravos – encontram-se com efeito as seguintes classes de informações que definem completamente a condição presente dos escravos: anúncios de compra, venda e aluguel de escravos em que sempre figuram as palavras mucama, moleque, bonita peça, rapaz, pardinho, rapariga de casa de família…”.

Esses anúncios de jornais, de que trata Joaquim Nabuco, despertaram o interesse de Gilberto Freyre no início dos anos trinta, para isso contou com as pesquisas do jovem José Antônio Gonsalves de Mello, depois transformada em conferência, “O escravo nos anúncios de jornal do tempo do Império”, seguindo-se do livro de grande sucesso. Os anúncios de jornais, particularmente os do Diario de Pernambuco, já vinham sendo utilizados por Gilberto Freyre desde 1933, quando da publicação da primeira edição de Casa-Grande & Senzala (p.330, notas), como identificação das “nações” africanas aqui existentes.

Dos anúncios transcritos por Gilberto Freyre, aparecem escravos claros, a denunciar a mestiçagem que tomava conta do Brasil, formadora da morenidade de que tanto nos orgulhamos nos dias atuais: alvo era “Francisco, que tinha tatuagens representando uma cruz e o signo-de-salomão” (DP, 28.3.1834); “vende-se para fora da província uma mulata bem alva, de idade de 20 a 22 anos, muito prendada, fiel e sem vício algum” (DP, 30.11.1836); o mulatinho que desapareceu da ponte da Boa Vista era “alvo e de cabelo estirado e louro (DP, 16.9.1837); de peitos grandes, pés e mãos pequenas, dentes grandes separados, era a mulata clara Virgínia (DP, 13.3.1838); “…estatura alta, bem alvo e bonito, seco de corpo, braços compridos, dedos finos e grandes, sendo os dois mínimos dos pés bastante curtos e finos, tem dezoito anos de idade, cabelos corridos e pretos, levando eles rentes… mãos e pés bem feitos e cavados, olhos pardos e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas, não buça, leva calça de brim branco já usada e camisa de chita com flores roxas (DP, 21.1.1865); “… bem alvo e bonito, seco de corpo, braços e pernas compridas, dedos finos e grandes, cabelos corridos e pretos, olhos grandes e bonitos, sobrancelhas pretas e grossas”, era Ubaldo cuja fuga é anunciada (DP. 5.4.1870).

Por tais anúncios podemos saber mais sobre as nações de origem ((Moçambiques, Angolas, Caçanges, Benguelas, Nagôs, Bantos, etc.), marcas de origens e de castigos corporais, tatuagens tribais, divertimentos, vida social e habilitações dos escravos: divertimentos – “Catarina freqüentava aos domingos o maracatu dos coqueiros, no Aterro dos Afogados” (DP.1.7.1845) ; erudição – “Delfina falava muito bem espanhol” (DRJ, 4.5.1830) ; trajes – Isabel vestia preto, “por o Sr. trazer de luto” (DP, 31.1.1842) ; temperamento (tristes, alegres, falantes, ladinos, brigões), vícios (fumo, álcool, comer terra); doenças (marcas de bexiga, boubas, bichos-de-pé etc.); ajuntamentos – a preta Ricarda era canhota, “mais ou menos alta, seca, cabeça chata, cara redonda”, que, “muito pachola”, gostava de “súcias e batuques” (DP, 16.7.1845); adornos; penteados; deformações profissionais; constituição física – Ana “tinha os peitos em pé, pés pequenos, bem feita de corpo” (DP, 4.5.1839); comportamento – … “mulata de linda figura, sabe labirinto, é engomadeira e costureira, de boa conduta”, como não poderia deixar de ser, “própria para uma noiva” (DP, 7.8.1857); marcas de ferro e/ou de nação; dado a feitiços – alguns com culto instalado na Estrada de João de Barros (DP, 7.2.1859); não faltando escravos fugitivos pertencentes a ordens religiosas, como bem retrata o anúncio publicado no Diario de Pernambuco de 11 de setembro de 1838: “do engenho Maraú, ribeira do rio Parnaíba, propriedade do Mosteiro de São Bento da cidade da Paraíba, fugiu Bonifácio, crioulo, idade de 50 anos, seco, pernas finas, pouca barba, e já toda branca; João Batista, crioulo, carpina, de 30 anos de idade, estatura ordinária, cheio de corpo, e muito barbado, tem os calcanhares brancos, e pernas fouveiras por queimadura de fogo de pólvora, e o andar um tanto embaraçado; quem os prender e levá-los ao dito engenho ao abaixo assinado, ou ao Mosteiro de Olinda, será satisfeito de todas as despesas e bem recompensado; consta ao abaixo assinado que eles têm andado por Paudalho, Nazaré e Limoeiro, portanto ele roga a seus amigos residentes nesses lugares, toda a pesquisa a respeito, e deles espera tal favor Fr. Galdino de S. Inês Araújo”.

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