NAZISMO EM PERNAMBUCO ( Cont…)


Sentado em uma mesa no casarão de onde a família comandava a Companhia
de Tecidos Paulista, Nilson Lundgren rebateu, com os argumentos disponíveis, as
acusações de relação da família com o nazismo, sejam elas fundamentadas pelas
investigações do serviço secreto ou não. “Nesta casa pisaram algumas das maiores autoridades deste país como pessoas amigas”, recordou.

Na mesa espaçosa, recortes de jornais, livros com referência ao poder empresarial
da família Lundgren e fotos, muitas fotos de figuras ilustres emolduradas, ladeadas por representantes da família. Notadamente, Frederico João Lundgren e Arthur undgren, que sucedeu Frederico na administração dos negócios após a sua morte, em 1946.

Nas fotos, autoridades como os ex-presidentes Getúlio Vargas e Eurico Gaspar
Dutra, os generais Juarez Távora e Zenóbio da Costa, além do ex-ministro e
governador da Paraíba, José Américo de Almeida, que também teve importante
participação da vida literária brasileira. “Tínhamos envolvimento com o nazismo? E
isso acontecia com a conivência das autoridades?”, questionou Nilson Lundgren,
que tratou, também, de minimizar a informação de que Vargas era simpático ao
regime antes de o Brasil entrar na guerra. “Se era, isso era ele lá. Nós, nunca”,
reforçou.

Ao ouvir a referência sobre os registros do Dops a respeito das reuniões, ele se
apressou em dizer: “Ora, o Dops era comandado em Pernambuco pelo doutor
Etelvino Lins e ele também frequentava esta casa”. Ainda lembrando as figuras
ilustres que visitaram o casarão, Nilson citou o ex-presidente norte-americano,
Jimmy Carter (1977-1981).

Outro argumento usado para rebater a afinidade dos alemães com o nazismo
era o fato, segundo Nilson Lundgren, de que grande parte deles eram judeus
alemães. “Em 1939, com o início da guerra, muitos deles migraram para o Brasil
fugindo do nazismo. Então Frederico Lundgren disse ‘Ah! Vamos trazer eles
para cá. Vamos montar as Casas Pernambucanas’. Eles se tornaram diretores”,
recordou.

Dono de uma postura extremamente refinada, Nilson Lundgren teve educação
britânica. Foi para a Inglaterra logo depois da Segunda Guerra e disse ter como
maior ídolo Winston Churchill, o primeiro ministro que comandou a resistência aos
planos expansionistas de Adolf Hitler. E lembra também a condecoração recebida
pelo pai, Arthur Lundgren, do rei da Suécia, Gustavo VI Adolfo, em 1946.
A presença alemã em Pernambuco era muito forte, com muitos deles espalhados
por grandes companhias, bancos, além da fábrica de tecidos. Antes do Brasil entrar na guerra, não eram poucas as manifestações de apoio dos pernambucanos ao egime do Terceiro Rich. Os arquivos do Dops têm a foto de uma suástica hasteada durante uma festa de carnaval, no Clube Internacional do Recife.

As reuniões do Partido Nazista ocorriam sem ressalvas até 1938, quando
foi proibida, por lei, a existência de partidos, no Brasil, inspirados em legendas
estrangeiras. O grupo passou, então, a se encontrar na clandestinidade em
Pernambuco. Estima-se que a sigla chegou a congregar 500 integrantes. Os
encontros, após a proibição, passaram a ser monitorados mais de perto.
A partir daí surgiram as acusações de que, entre os alemães que trabalhavam
em Pernambuco, havia vários espiões nazistas. O combustível para as acusações
foram os produtos apreendidos, entre eles, mapas do Recife, da ilha de Fernando
de Noronha e do Rio de Janeiro, além de passaportes, broches, pôster de Hitler e
bracelete original com a suástica (símbolo adotado pelos nazistas).

Somente de materiais iconográficos são mas de 300 peças. O acervo possui
ainda mais de 200 prontuários individuais. Além dos funcionais dos supostos
espiões nazistas, há também a relação dos estrangeiros que foram confinados
no campo de concentração Chã de Estevam, em Araçoiaba. Para o local eram
mandados os alemães no período noturno, muitas vezes, para garantir a integridade deles. “Lembro que os funcionários alemães da fábrica eram mandados para lá à noite e eram trazidos de volta durante o dia”, recorda Albenita Lundgren. Existia, durante a Segunda Guerra, um clima de animosidade contra os alemães. Em Rio Tinto, na Paraíba, o casarão dos Lundgren chegou a ser invadido pela população, disposta atar os trabalhadores germânicos.

Nilson Lundgren, no entanto, lembra que os ataques de ódio dos brasileiros não
miravam apenas os alemães. “Existia aqui uma fábrica de refrigerante chamada
Fratelli Vita, pertencente a italianos. Entraram lá e quebrara tudo. Tinha um japonês chamado (Asanosuke) Gemba. Quebraram o negócio dele também. Então…”, disse, erguendo os ombros e estendendo os braços. (S.S.M.)

Uma resposta

28 02 2014
Walter

Olha só, tivemos também campos de concentração aqui no Brasil, criados certamente por Getulio e seu Deops sempre com a desculpa de proteger os concentrados, nunca para puni-los.
O vento que ventava lá (Alemanha), também ventava cá (Brasil)!

A violência é natural do ser humano. Dentro de nós há uma força malígna, geralmente adormecida. Quando nos damos conta, utilizamo-la para nossos interesses, mesmo quando temos a certeza insana de que estamos fazendo a coisa certa.

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