OPINIÃO: CONFLITO ENTRE ISRAEL E PALESTINA

30 12 2008

SIONISMO E NAZISMO

Antonio Louçã

Se a comparação entre Ramallah e Auschwitz é certamente incorreta, esse não é um motivo bastante para a colocar na conta de uma emotividade desculpável num escritor ou artista. Saramago autojustificou-se com o seu dever, como escritor, de provocar reações na opinião pública. Mário Soares desculpou Saramago, invocando o direito do escritor à indignação. Ambas as explicações pecam por demasiado displicentes. Para além do fundo emotivo, é preciso discutir o fundo racional, se existe algum, nas palavras de Saramago. Estou à vontade para propor essa discussão porque fui por vezes, no tratamento de diversos temas da história do século XX, alvo de uma conotação maliciosa com o “judaísmo internacional” – uma acusação muito do agrado da extrema-direita.

As analogias históricas são legítimas desde que se recorra a elas tendo presentes os seus limites. O sionismo e o nazismo não são irmãos gêmeos. Mas a guerra em curso tem sublinhado de forma dramática alguns paralelos entre ambos.

O sionismo não tem campos de extermínio com câmaras de gás, e nisto continua a distinguir-se claramente do nazismo. Mas a jornalista israelita que retoricamente perguntou a Saramago onde estavam as câmaras de gás parecia reconhecer que essa era a última trincheira em que podia refugiar-se para marcar diferenças entre sionismo e nazismo. A resignação é precipitada, porque ainda há algumas outras diferenças de monta. Só que elas tendem a reduzir-se a um ritmo alarmante.

Para chamar as coisas pelos nomes, não podemos limitar-nos, como a habitualmente rigorosa Esther Mucznik, a um eufemismo sobre a “disputa pela terra”. A limpeza étnica que o sionismo realiza contra os palestinos é em tudo semelhante à limpeza étnica que o nazismo realizou nos anos 30 contra os judeus, quando ainda não era evidente que iria dedicar-se a exterminá-los. A combinação de violências físicas com pressões econômicas era a receita do nazismo para afugentar os judeus, e volta a ser a receita do sionismo para afugentar os palestinos – com uma intensidade aliás superior à do nazismo até Novembro de 1938.

Há várias modalidades de genocídio. Algumas começam antes mesmo da limpeza étnica e muito antes das câmaras de gás. Ao decidir privar os polacos de qualquer instrução que fosse além das contas de somar e das primeiras letras mal soletradas, Heinrich Himmler formulava um programa genocida – eis uma reflexão lapidar que ouvi ao grande historiador israelita Yehuda Bauer e que só pode redundar na condenação de Israel como potência genocida.

A “lei do regresso” foi comparada com as leis de Nuremberg por intelectuais israelitas íntegros e corajosos. Ela tem, efetivamente, em comum com aquele abominável precedente a concepção de que alguém que nasceu longe e nunca conheceu o país pode ter o direito a vir instalar-se nele expulsando pela força alguém que aí nasceu e construiu a sua vida.

Com um critério racista, os nazis encorajavam a vinda dos alemães ou germano-descendentes do estrangeiro para ocuparem o lugar dos judeus a expulsar. Com um misto de critérios raciais e religiosos, os sionistas encorajam a vinda de judeus residentes no estrangeiro para ocuparem progressivamente o lugar dos palestinos. Os colonatos são atualmente um monumento póstumo ao nazismo construído à sombra da Estrela de David e das metralhadoras do Tsahal.

A “limpeza étnica” não consistiu para o nazismo, nem consiste para o sionismo, nem pode nunca consistir para ninguém, num simples e inócuo plano de transplantar populações.

Esses planos têm sempre por trás uma pulsão “eliminacionista”, porque não se transplanta milhões de pessoas sem fazer morrer muitos milhares. Assim, os planos do nazismo para deportar judeus em direção à Polônia, ou a Madagascar, não podem ser vistos como uma modalidade mais benigna do genocídio, e sim como parte orgânica de um processo cuja lógica interna já apontava para Auschwitz.

Há israelitas, colonos e não só, que dizem diante das câmaras de filmar o mesmo que pensa Sharon: que os palestinos devem ser expulsos porque têm muitos países árabes onde reorganizar as suas vidas. Que eles adoecessem ou morressem “como piolhos”, na expressão do falecido ministro israelita Rehavam Zeevi, seria indiferente. Esta é uma atitude genocida idêntica à dos nazis nos anos 30.

A política de confinar os grupos de população considerados indesejáveis em guetos onde vão definhando também é comum ao nazismo e ao sionismo. A miséria e a doença que grassam nesses guetos tornam-se depois uma pretensa confirmação da sub-humanidade dos grupos discriminados. A revolta generalizada que germina torna-se o pretexto para expedições punitivas, em que toda a população é considerada terrorista. A detenção de todos os homens acima dos 14 anos é um procedimento típico dos ocupantes nazis.

Sob esse aspecto, é verdade o que dizia o historiador militar israelita Martin van Creveldt: marcar os braços dos detidos com um número, como os nazis faziam em Auschwitz, “apenas” é chocante por ser um sinal exterior e altamente simbólico do parentesco entre nazismo e sionismo. Mas o mal está, segundo o próprio Creveldt, na ocupação dos campos de refugiados, na criminalização em massa da população. A partir do momento em que são estes os ingredientes da política adotada, também é inevitável que os seus sinais exteriores se assemelhem aos do nazismo, porque a marcação dos números é uma forma óbvia de identificar um grupo tão extenso como a população masculina acima dos 14 anos.

Também o entusiasmo dos estrategas israelitas pelas técnicas nazis aplicadas na destruição do gueto de Varsóvia em Abril-Maio de 1943 resulta de um parentesco iniludível: o caráter suicidário das revoltas nos guetos judeus de então e nos guetos palestinos de agora apresenta semelhanças que levam as receitas repressivas a mimetizar-se.

Tal como o general nazi Jürgen Stroop, o exército israelita compartimenta os campos de refugiados, identifica os edifícios onde existem franco-atiradores, destrói esses edifícios, captura toda a população capaz de combater. Quando o diário israelita Ha’aretz de 25 de Janeiro denunciou o estudo do modelo contra-insurreccional nazi pelo exército israelita, o porta-voz de Ariel Sharon, Ra’anan Gissen, limitou-se a explicar à imprensa que os seus oficiais acharam que “era parecido, porque iam andar a combater rua a rua contra a Autoridade Palestina”. A comparação é de Gissen, não de Saramago.

Os refuseniks israelitas que se sujeitam à prisão por desobediência têm bons motivos: eles não querem encontrar-se a si próprios no papel dos jovens nazis que esmagaram a Intifada do gueto de Varsóvia e massacraram os seus avós insurretos. Existe atualmente na sociedade israelita uma fratura fundamental entre os que, ao referirem-se ao Holocausto, dizem “aquilo nunca mais pode acontecer” – e aqueles que dizem “aquilo nunca mais pode acontecer-nos”.

Há os que condenam os crimes do nazismo em nome de direitos humanos considerados universais e aqueles que os condenam porque foram cometidos contra judeus. Na evocação do passado esquecem ciganos, russos, comunistas, testemunhas de Jeová, homossexuais. Na apreciação do presente nada vêem de reprovável, porque as prepotências de hoje não são contra os judeus, mas contra os árabes. Diga-se aliás de passagem: ao exercerem-se contra os árabes, essas prepotências são também anti-semitas.

As execuções de prisioneiros a sangue-frio, cuja denúncia motivou a fúria do exército israelita e os seus sucessivos disparos contra jornalistas, ainda não têm o caráter sistemático que tinham as execuções dos Einsatzkommandos na Frente Leste. Mas já o tiveram, nos massacres de Sabra e Chatila, e podem voltar a tê-lo. Dir-se-á que esses dois massacres não foram realizados pelo exército israelita e sim pelos mercenários libaneses ao seu serviço. Admitamos essa versão, embora recentemente tenham surgido indícios de que Sharon fez muito mais do que abrir as portas dos campos com a intenção de propiciar o massacre. Ainda assim mantém-se a analogia com o nazismo: muitos dos pogroms realizados na Frente Leste, massacrando aldeias inteiras, foram obra da soldadesca ucraniana ou lituana ao serviço das SS.

Num ponto, o sionismo continua e continuará sempre a distinguir-se do nazismo. Este era a expressão de um imperialismo alemão que aspirava ao domínio do mundo no segundo quartel do século XX. O sionismo está condicionado, com rédea curta, pelos estímulos e pressões do imperialismo que domina o mundo no alvorecer do século XXI. Para além de contradições secundárias, encontra-se em Washington, na Casa Branca, a responsabilidade última das acões de Israel e a explicação última para o fato de o criminoso de guerra Ariel Sharon nunca se ter sentado perante um tribunal internacional.


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